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Afinal de contas, o que seria esse tal de "novo normal" no pós-pandemia?

Não teremos um “novo normal”, considerando que não tínhamos o “normal”. Continuaremos o viver da forma que melhor se apresentar, com as inconstâncias e surpresas que cada dia nos reserva

Publicado em 08 de Agosto de 2020 às 05:00

Públicado em 

08 ago 2020 às 05:00
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

Mulher usando máscara e álcool em gel
Uso de máscara e higienização das mãos serão hábitos mais comuns daqui para frente Crédito: siraphol s. / Freepik
Desde que a humanidade foi atravessada pela pandemia provocada pelo novo coronavírus, a vida de todas as pessoas, ou pelo menos daquelas que compreendem a gravidade da situação, sofreu modificações na rotina e na forma de viver os vários aspectos de vivência humana: social, laboral e familiar. As narrativas acerca de um “novo normal” têm se tornado recorrentes, como se esperássemos algo novo de um estado de coisa que não tínhamos, pois normal é algo efêmero idealizado pelo homem.
A provocação é feita considerando que precisamos avaliar se existia um normal, ou melhor, precisamos compreender o que é normal, dado que a vida não comporta normalidades, e não cabe em caixinhas, não pode ser controlada.
Normalidade, enquanto qualidade ou estado de normal, na área da psicologia, possui uma conceituação revestida de complexidade, subjetividade e ambiguidade, indicando-se certos conceitos que representam a dificuldade de compreensão. A normalidade como sendo algo ideal, operacional, estatístico, ausência de doença, funcional, subjetiva, como processo, como bem-estar ou como liberdade.
A partir do que era o ritmo de vida antes da pandemia, estabeleceu-se um parâmetro de que aquilo era o normal, e o pós-pandemia, ou seja, viver com mais cuidados e distanciamentos para evitar contaminações e eleger um viver com mais atenção à saúde básica seria um “novo normal”. Rever as formas de relações sociais, de estudar e de trabalhar se apresentou como o grande desafio.
Contudo, para tentar compreender a vida e mergulhar nas questões mais profundas da existência humana, cabe ressaltar que a normalidade não combina com a vida, e que por essência é cheia de altos e baixos. Uma coisa que a vida não é, é normal, pois se assim o fosse não seria a vida, enquanto incubadora de criatividade e leque de surpresa que inunda o ser, e enquanto propulsora de possibilidades que se apresentam como desafios desde o seu início até o seu término.
A vida é inconstância pura, as pessoas é que possuem o sonho de controle para estabelecer uma segurança que não existe. E além do mais, como diria o escritor e poeta irlandês Oscar Wilde, toda “normalidade é uma ilusão imbecil e estéril”.
Sendo assim, não teremos um “novo normal”, considerando que não tínhamos o “normal”. Continuaremos o viver da forma que melhor se apresentar, com as inconstâncias e surpresas que cada dia nos reserva. Para uns, será mais fácil; para a maioria continuará com as mesmas dificuldades. Não haverá passe de mágica, mas o esforço de encontrar na vida as possibilidades de continuar a caminhada por tempo determinado e de forma inusitada.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Pública

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