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Cegos e indiferentes

Invisibilidade é um fenômeno violador dos direitos humanos

Quantas pessoas estão em nossa cidade e não são “vistas”, ou melhor, são ignoradas, assim como são minimizados os seus sofrimentos, seja pela fome, pelo desemprego, pelo frio ou pela falta de condições de vida

Publicado em 29 de Agosto de 2020 às 05:00

Públicado em 

29 ago 2020 às 05:00
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

Pessoas em situação de rua ocupam Praça do Papa, em Vitória
Pessoas em situação de rua em Vitória: invisíveis clamam por ajuda e não são ouvidos Crédito: Fernando Madeira
Em 1995, o autor português José Saramago em sua obra “Ensaio sobre a cegueira”, nos faz lembrar “a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”. Isso nos remete a uma história em uma dessas periferias de uma grande cidade, quando um adolescente furtou alimentos em um supermercado. Ao empreender fuga, uma perseguição foi iniciada, e na caçada àquele menino, todos os mecanismos de contenção foram disponibilizados, sendo utilizados inclusive um helicóptero.
Ao ser apreendido, ele se manifestou dizendo que durante anos sofrera agressões de sua família e, na rua, passou fome e necessidades, e aos seus gritos ninguém respondia, e agora, quando tinha furtado para matar a fome, todo o mundo viu que ele existia.
"Não é o outro que é invisível, nós que com nossa indiferença e nosso preconceito alimentamos uma cegueira que nos afasta de nossa humanidade"
Verônica Bezerra - Articulista
Esse episódio representa o quanto os invisíveis dessa terra clamam por ajuda e não são ouvidos. Quantas pessoas estão em nossa cidade e não são “vistas”, ou melhor, são ignoradas, assim como são minimizados os seus sofrimentos, seja pela fome, pelo desemprego, pelo frio ou pela falta de condições de vida.
Invisibilidade social é o fenômeno em que pessoas, sujeitos de direitos, não são notados por causa da indiferença ou preconceito. Existem muitas formas de invisibilidade: a social, econômica, racial, sexual e etária.
O que precisamos refletir, enquanto sociedade, é o que leva uma pessoa ignorar a condição de sofrimento de outra, mesmo que tenha condições de colaborar para que aquela situação de violação se reverta.
É importante nos conscientizarmos que cada um e cada uma do seu lugar de atuação pode fazer algo, sendo o primeiro passo não ignorar a dor do outro, considerando que não se trata de compaixão do outro que penso ser menor do que eu, mas compreender que todos possuem o direito de viver em condições digna e de serem vistos como sujeitos de direito.
Lado outro, necessário refletir o que nos torna tão cegos a ponto de “não ver” o outro. A invisibilidade no sentido que estamos trazendo aqui não passa pelo fato da luz visível não ser absorvida e não ser refletida por um objeto, mas sim o quanto nos endurecemos em relação ao sofrimento humano, a ponto de nos tornarmos cegos e indiferentes ao outro.
Sendo assim, não é o outro que é invisível, nós que com nossa indiferença e nosso preconceito alimentamos uma cegueira que nos afasta de nossa humanidade. Saramago em sua obra convida a todos a recuperar a lucidez e resgatar o afeto diante da pressão dos tempos e ao que foi perdido, obrigando a todos a parar, fechar os olhos e ver.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Publica

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