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Crueldade

Queimar pessoas vivas é um ato medieval ainda presente na sociedade

Em Vitória, um homem em situação de rua teve seu corpo levado à combustão extrema causando-lhe a morte. Um sacrifício em nome de uma sociedade que a cada dia se descobre doente. Imaginemos a dor e desespero daquele homem

Públicado em 

18 jul 2020 às 05:00
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

Local onde morador de rua teve o corpo incendiado em Itararé
Local onde morador de rua teve o corpo incendiado em Itararé, em Vitória Crédito: Reprodução/TV Gazeta
“Auto de fé” é conhecido na história como método de punição em que uma pessoa condenada era atada a uma estaca de madeira e, deliberadamente, morta por efeito de combustão. A morte na fogueira vem de longa data, classificada como pena capital em desfavor de pessoas que tinham cometido alguns tipos de crime.
Essa prática já foi abandonada como pena, contudo, infelizmente, ainda assistimos pessoas sendo queimadas vivas, como foi o caso do indígena em Brasília ou pessoas em situação de rua em São Paulo. Um caso recente aconteceu em nossa Capital na noite do dia 5 de julho, no bairro Itararé. Enquanto dormia, um homem em situação de rua teve seu corpo levado à combustão extrema causando-lhe a morte. Um sacrifício em nome de uma sociedade que a cada dia se descobre doente. Imaginemos a dor e desespero daquele homem.
" Atear fogo no outro é incendiar e transformar em cinzas a dignidade da humanidade. É mais que um atentado ao valor intrínseco da vida humana, é uma violência sem tamanho que atinge a essência do ser"
Verônica Bezerra - Articulista
Por mais que paremos para refletir, não dá para imaginar o que passa na cabeça de uma pessoa que ateia fogo em outra pessoa. O ato, mesmo se fosse em tempos medievais, é de uma crueldade sem tamanho e demonstra que ainda temos muito o que avançar enquanto sociedade no que tange ao respeito ao outro e ao cuidado com os mais vulneráveis.
Atear fogo no outro é incendiar e transformar em cinzas a dignidade da humanidade. É mais que um atentado ao valor intrínseco da vida humana, é uma violência sem tamanho que atinge a essência do ser.
Queimar pessoas vivas é ato medieval que ainda persiste na sociedade atual e que representa a vontade e intenção, além de eliminação do outro, de ataque a essência humana caracterizando-se como ato de barbárie. É como se os atos da inquisição fossem atualizados para fazer desaparecer aqueles que são considerados menores, invisíveis e matáveis.
Para enfrentar essa situação, que ainda é recorrente, para além da responsabilização daqueles que praticam esses atos horrendos, é preciso uma ação interdisciplinar. Políticas públicas de retaguarda e proteção para as populações vulneráveis que ainda são vítimas dessas práticas. Compreensão das ações criminosas no contexto social, político e econômico vigente. Coibição dos discursos de ódio. Conscientização de toda a sociedade de que não se trata de um problema isolado, mas que dialoga com a dinâmica de ausência de direitos. E, de uma vez por todas, tomada de consciência de que os “Autos de Fé” são práticas repugnantes de extermínio do semelhante, fazendo vítima todos os seres humanos, vez que é tortura, e por isso, crime de lesa-humanidade.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública

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