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Vida em sociedade

Obama e Michelle, aqui no Brasil nós também estamos cansados

Lá, como aqui, a sociedade está colocada em extremos tão distantes, que até mesmo as conversas que eram triviais parecem estar fadadas àquele momento em que não se pode mais chegar a um consenso

Públicado em 

18 nov 2020 às 04:00
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi

O ex-presidente americano Barack Obama e a esposa Michelle
O ex-presidente americano Barack Obama e a esposa Michelle Crédito: Instagram/@barackobama
Em um de seus discurso de apoio à candidatura de Joe Biden e Kamala Harris à presidência dos Estados Unidos, Barack Obama mencionou uma conversa com sua esposa Michelle Obama que me chamou bastante atenção. A conversa foi sobre como ambos estavam cansados desses dias em que se faz necessário argumentar coisas óbvias durante conversas diárias com familiares, colegas de trabalho, amigos de convivência recente ou de longa data.
Lá, como aqui, a sociedade está colocada em extremos tão distantes, que até mesmo as conversas que eram triviais, da convivência do dia a dia familiar, do trabalho e de amizades, parecem estar fadadas àquele momento em que não se pode mais chegar a um consenso, e a distância que separam os argumentos de um lado a outro se torna intransponível.
Michelle comentando com Barack, como ele narrava naquele discurso que eu mencionei acima, quão exaustivo estavam sendo os dias, conversas e encontros que deveriam ser prazerosos, uma distração para os problemas maiores que cada um do seu modo tem que enfrentar na vida (filhos doentes, desemprego, contas para pagar no final do mês, términos de relacionamentos duradouros, guardas compartilhadas, crise financeira, coronavírus).
As conversas estavam-se tornando insuportáveis, tamanho era o esforço argumentativo e de polidez que se tinha que fazer para contra-argumentar educadamente às mais absurdas teorias da conspiração e às fake news que se espalhavam por lá naqueles dias.
Ouvindo o que Obama relatava, sobre a impressão que afinal os dois tinham do seu cotidiano e o das pessoas ao seu redor, mesmo com toda a diferença de situação e de status de vida que nos separam aqui no sul global da vida de ex-presidente e ex-primeira dama dos Estados Unidos, pude entender exatamente sobre o que ele se referia. A mesma sensação vivemos aqui no Brasil desde as eleições de 2016, talvez um pouco antes, quiçá desde as manifestações de junho de 2013.
Temos aqui, ao que parece, uma patologia que acomete a interação dialógica cotidiana das relações intersubjetivas, as quais em última análise trançam (ou deveriam trançar) o tecido social que mantém a nossa sociedade unida. Os polos de interação da comunicação nas esferas pública e privada parecem não operar mais com os mesmos códigos e programas.
A compreensão dos argumentos de ambas as partes não se dá, de modo que não se pode mais estabelecer uma conversação razoável entre as pessoas que se colocam em polos distintos do espectro político no Brasil.
Mais difícil parece ser, porém, quando de um lado desses polos os argumentos utilizados baseiam-se em notícias que são veiculadas somente em grupos de WhatsApp e de Facebook, dos quais somente as pessoas que acreditam nessas verdades fazem parte, reproduzindo-nas por meio de repostagens. Se, há poucos anos, tínhamos somente alguns meios de comunicação – jornais escritos e jornais televisivos produzidos por fontes que se podiam contar nos dedos – hoje em dia todo aquele que tem acesso à internet pode ser uma fonte de notícias. Saber o que é verdade ou fake exige um esforço intelectual que nem todos querem fazer.
Que dizer então de um grupo da sociedade que simplesmente não mais está disposto a ler mais de um jornal escrito ou a assistir mais de um jornal televisivo para confirmar se as notícias divulgadas são reais, como era usual fazer antigamente. E o pior, a maioria  nem sequer está disposta a ler uma só fonte confiável de notícias, contentando-se apenas com o Facebook e o WhatsApp. É realmente cansativo, Michelle!
Sim, entendemos a facilidade e até mesmo a descrença em determinados meios de comunicação aqui no Brasil, nem todos mantiveram-se, ao longo dos anos desde a ditadura até hoje, atentos às regras da ética jornalística. Mas simplesmente acreditar no que foi postado no Facebook por uma pessoa que você não conhece não seria demais?
Pior ainda, usar um vídeo repassado e repassado por WhatsApp, que você nem sabe se é original ou editado, para formar sua opinião e tentar impô-la aos seus colegas, amigos e familiares, não seria um pouco além da conta? Que tal então, brasileiros e brasileiras, voltarmos a conversar sobre o tempo, se vai chover ou não? Voltemos às amenidades! Quem sabe assim, de repente, a vida fique mais leve (e menos democrática, menos justa, menos asseguradora de direitos...)!

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

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