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Mariana Reis é administradora de empresas e educadora física. É pós-graduada em Gestão Estratégica com Pessoas e em Prescrição do Exercício Físico para Saúde. Atua como consultora em acessibilidade e gestora na construção e efetivação das políticas públicas para a pessoa com deficiência em Vitória

Volta às aulas: as lições da pandemia do coronavírus

Diferente de anos anteriores, o retorno às salas de aula se tornou uma questão polarizada (mais uma). Com a pandemia e a falta de planejamento da vacinação para os profissionais da educação, esse retorno é a pauta do dia

Publicado em 02/02/2021 às 02h00
Crianças de máscara olhando pela janela de casa: quarentena
E agora temos que colocar o mais novo episódio do ano: com a covid-19, alguns amiguinhos poderão não voltar por escolha cuidadosa dos pais. Crédito: L.Julia/Shutterstock

O texto de hoje conta novamente com a participação do meu amigo e pesquisador na área da educação inclusiva, Douglas Ferrari, doutor em Educação e professor na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Quando essa dupla se junta, fica difícil conter a agitação da caneta sobre o papel.

Nos próximos dias, a meninada viverá uma experiência que acontece incontáveis vezes em suas vidas, mas que, a cada uma delas, novos sentimentos e expectativas aparecem: a volta às aulas. Diferente de anos anteriores, o retorno às salas de aula se tornou uma questão polarizada (mais uma). Com a pandemia e a falta de planejamento da vacinação para os profissionais da educação, esse retorno é a pauta do dia.

Aos professores e profissionais da educação: vacina já!

Nos últimos anos, o sistema escolar se modificou e ainda se modifica para se adequar ao modelo ou proposta inclusiva. Ou seja, que acolhe a todos e favorece a diversidade oferecendo para aqueles que encontram barreiras – seja de aprendizagem ou físicas – ferramentas adequadas para superá-las. Porém, ainda que esse esforço seja notável, temos péssimas condições sociais e de infraestrutura que dificultam a forma de acesso às escolas.

Grande parte dos alunos e profissionais da educação usa transporte coletivo. Ora, se somarmos esse contingente usando os ônibus, teremos um ambiente a mais que poderá favorecer a aglomeração e a transmissão do coronavírus. E tem mais, muitas crianças e jovens ficam com parentes mais velhos enquanto não estão na escola. É o passa e repassa do vírus num momento em que ainda estamos em meio a um tsunami no aumento de casos no Brasil. Se a vacinação não consegue ser coletiva, que ela seja imediata para os profissionais da educação, assim como é para os da saúde. Se a educação é prioridade temos que sair do papel e ir para a prática.

Quando penso nessas experiências e nas crianças, fico imaginando que cada uma delas é uma irmã, um irmão ou um amigo que tem suas histórias e preferências – uma comida, uma música ou um jogo. Essa filha ou filho com sonhos e o desejo de realizá-los. Inevitavelmente todas as crianças ficam ansiosas para o primeiro dia e, ao mesmo tempo, chateadas por não mais alimentar a preguiça e poder se divertir a qualquer hora.

A educação é coletiva

Bate aquele frio na barriga para conhecer a turma ou rever os amigos mais antigos e se a escola for nova, aí fica impossível conter tamanha agitação. Ser aceito é o mais tumultuado dos sentimentos. E agora temos que colocar o mais novo episódio do ano: com a covid-19, alguns amiguinhos poderão não voltar por escolha cuidadosa dos pais, e não ter aquele melhor amigo da escola para compartilhar dos sentimentos pode ser uma etapa difícil a ser encarada pela criança. Daí entra outro conflito, o de ouvir a criança, adolescente ou jovem e deixar eles escolherem ir ou não. Afinal, a educação é interação e é coletiva.

Se por um lado, muitos querem o retorno por pensarem na produtividade e na perda da mão de obra (numa visão bem mercadológica da educação, sabe?), outros reafirmam e lutam para garantir a preservação da vida. Todos sabemos que já houve perdas de aprendizagem e perdas emocionais também. No entanto, essas perdas são recuperáveis. Diferente da vida, caro leitor, que não se recupera e esse aspecto não se discute, sabe por quê? No conflito do direito, ou seja, o direito à educação e à vida, o segundo prevalece sobre o primeiro. E numa pandemia como a que estamos vivendo, é disso que estamos falando. Logo, o ensino remoto, mesmo não sendo a melhor forma de aprendizagem, pois tira a mediação do professor, continua sendo a melhor forma de garantir o direito à vida e o direito à educação.

Na segurança das telas

O ano se inicia de maneira complicada, talvez mais que em 2020. Trabalhar as condições das escolas e a formação dos professores, integrando as novas tecnologias e contornando os desafios diários, são maneiras mais inteligente e eficazes para que a educação não seja cruel com aqueles que não tem acesso ou que tem acesso com dificuldade ou ainda aquele que tem acesso mas que não aprende com a mesma qualidade que no ensino presencial. Então, falar em aprovação e reprovação neste momento é muito delicado e não faz sentido nenhum, já que a educação não tem sido priorizada pelo governo.

A vida durante a pandemia é difícil tanto para os pais quanto para as crianças e adolescentes. O retorno à escola é um passo muito importante, e que aguardamos com esperança. Mas o momento de aumento dos casos, e a longa espera pela vacina, faz aumentar também o desafio de se adaptar às mudanças impostas pelos novos tempos. Voltar ou não aos encontros no recreio depois do confinamento, seja para os alunos ou para os professores, tem um ponto comum: a dúvida. E essa parece que não está nos livros e ninguém consegue esclarecer. É hora de revisar a matéria para voltar a falar do assunto, segurar os abraços, esbarrões e as brincadeiras. O sinal bateu, liguem as câmeras, já pra casa!

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