Às vezes, faço um balanço do que venho escrevendo. Espero que vocês concordem que é mais ou menos o que cabe neste espaço chamado “Opinião”. Digo mais ou menos porque é impossível esconder as marcas da literatura, presentes em tudo que escrevo. É essa minha difícil condição de equilibrista que, de vez em quando, pede desculpas e cai.
Sou uma militante da ficção. Ficcionistas inventam histórias e criam personagens que vivem da empatia com alegrias, dores, amores e desamores dos seres sencientes. Nessa tarefa profundamente imersiva, a busca para achar a palavra exata, o ritmo para desenrolar a frase, a técnica para dar forma ao estilo são responsáveis por tudo que emerge das barafundas da imaginação. Mas, como muitas outras companheiras e companheiros dessa zona de transição, penso que artigo de jornal é uma coisa; literatura é outra.
Em um texto de elegante e refinada ironia, o escritor Flávio Izhaki comentava sobre gente que anda cobrando dos romancistas e contistas um tipo de realismo debruçado sobre as questões do Brasil de hoje, até mesmo pedindo que “falem sobre o tema da semana, do dia, da tarde”. Talvez isso se deva ao fato de que estamos perdendo a diferença entre o real e a representação do real. Tanta confusão pode bem ser posta na conta do tsunami de informações. Ninguém dá conta de ler tudo, de ver tudo, de escutar tudo. A memória acumula e mistura fragmentos do falso e do verdadeiro.
E esses fragmentos são aterrorizantes. A gente abre os jornais, liga a TV, olha na internet, e as primeiras notícias são sobre trapaças, politicagens, doenças, perdas e mortes. E o que mais espanta é uma espécie de acomodação diante de tanta dor e violência, que faz com que o dia de hoje seja mais normal que o de ontem, ainda que tudo em volta continue a desmoronar.
Não que os dias ruins de agora sejam diferentes dos dias de outrora. A história da humanidade prova que as doenças, as desavenças, as malquerenças, as destemperanças e as desesperanças sempre existiram. A Guerra de Ílion e seus horrores, marcou o início de nossas relações culturais no Ocidente. É antiga a cólera do guerreiro Aquiles, anunciada por Homero desde o primeiro verso da Ilíada.
Uma vaga sensação de impotência leva a gente a bambear-se nas cordas suspensas da realidade. Já que não há mais deuses que se metem nos negócios humanos, como nos tempos de Troia, por que não acreditar que há humanos que se metem a deuses e decidem quem deve viver ou morrer? Pelo menos é o que a literatura nos faz imaginar.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta