Dia desses, lendo Andréia Sadi, desviei os olhos de seu sorriso e li um destaque que ela havia feito no próprio texto que arengava sobre a arte de noticiar. “O difícil não é fazer perguntas a quem quer que seja, é obter a mínima resposta confiável”. É mesmo.
Nesta maravilhosa e desgraçada luta de escrever – até para si mesmo – pode acontecer de um tudo, inclusive obter a verdade e com ela dourar sua posição política. Claudio Bueno Rocha, o CBR, referência em técnica de jornalismo e teatro, me deu uma dica sobre uma das vertentes da informação: “Notícia é o que alguém por algum motivo quer esconder. O resto é publicidade”.
Se for para requentar a notícia, deixa que o leitor requenta. Obter uma notícia, colocá-la em sua cabeça de escritor ou jornalista dentro de um contexto que a justifique, que tenha algo de novo e verdadeiro, isso, CBR, cabe em todas as artes. Na medicina não é diferente.
O que essa pessoa quer “esconder” de mim, tornando enigmático, em forma de dor ou morte, a notícia que desorganiza o cliente e o terapeuta, e precisa de um texto definitivo.
Havia nevado subitamente em Paris, coisa rara. No fechamento daquela edição do "Le Monde" pós-nevasca, tudo o que poderia ser notícia estava na cara. Nada a procurar. Era óbvio.
A manchete deve sempre conter, sem faltar nada, todos os elementos do fato e despertar o leitor para o essencial. Mas nessas horas sempre aparece o nada. Foi assim, até que o chefe da oficina de impressão subiu à redação e deu uma ideia. Já era quase de manhã, quase todos mortos de cansados, sem conseguir produzir um simples título.
Mas no dia seguinte, em todas as bancas, resplandeceu a manchete em letras graúdas:
- Brrrrrrrrrrrrrrrr.
Longe dali, em "O Diário", o maior jornal da Rua Sete, a redação em peso recebeu ordens para acompanhar o destino do deputado Adalberto Simão Nader. Procura daqui, procura dali, telefona pra cá, telefona pra lá, e nada. Se a notícia não fosse apurada a edição seria suspensa e o cafezinho também.
Já passava das duas quando o repórter José Barreto de Mendonça entrou correndo na filial do jornal, o Britz Bar, na Pracinha da Prefeitura, gritando: “O homem está no Hospital Evangélico. Vai lá e fotografa com Makoto”.
Entraram? Não deixaram. Então seja criativo.
Makoto fotografou o prédio do hospital e a manchete foi salva: “Hospital Evangélico, em cujo leito agoniza o deputado Simão Nader”. Pulos e cervejas.
Mas não é que, só pra estragar a festa, a família do deputado telefonou e destruiu a nossa verdade. O homem havia viajado de avião de manhã anterior para o Rio.
A primeira página já montada, pronta pra rodar com uma notícia falsa, a popular “Barriga”. Vai lá Barreto, mexe com a manchete, dá teu jeito”.
No dia seguinte, em todas as bancas, a foto do hospital e o célebre título:
“Hospital Evangélico, em cujo leito NÃO agoniza o deputado Simão Nader”.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, não achou graça nenhuma.