Costuma-se dar o nome de Centro Histórico ao conjunto das primeiras construções de uma cidade. Tem alto valor cultural, social e político, dizem os entendidos. Tem probabilidades de atração para turistas, dizem os preocupados com o capital econômico.
Vitória tem seu Centro Histórico. É chamado de Cidade Alta. Vem dos idos do século XVI, quando os portugueses pisaram na ilha, fugindo dos goitacás. Para atestar, lá está a capelinha de Santa Luzia, repimpada no cocuruto de uma pedra. No século XIX, bateu o furor da modernização no Espírito Santo.
Decidiu-se que a capital deveria inserir-se entre as cidades desenvolvidas. Precisava ser ampliada. Isso de ampliação em uma ilha é bem complicado. Engenheiros deram tratos à bola. Projetou-se um aterro chamado de Novo Arrabalde. Como resultado, a Cidade Alta passou a ser uma ilha dentro da ilha e as construções do Centro passaram a ser vistas como antiguidades descartáveis. Muitos moradores se foram para arredores mais modernosos.
A Cidade Alta é uma espécie de bunker da resistência habitacional. É repleta de coisas belas e de persistentes mazelas. Tem muita gente que só vem trabalhar e retorna para seus bairros à tardinha. Tem muita gente que ama aí morar e ama também as construções tão cheias de histórias e memórias.
Nem sempre essas histórias e memórias são valorizadas. Um exemplo é o Viaduto Caramuru. Une duas ruas por cima do côncavo outrora coberto de água; tem um nome traçado em lembranças de querelas entre devotos de um santo; é cercado de fatos curiosos como a instalação de trilhos de um bonde fantasma. Mas está ao léu.
Até algum tempo atrás, passantes e turistas podiam ler sobre ele em uma vistosa placa plantada em sua entrada. A placa sumiu. Sumiu também um poste de ferro dos seis que sustentam os globos de iluminação, agora quebrados e dos quais apenas um ainda acende.
Mal iluminado, com as calçadas danificadas por rodas de veículos, o Viaduto Caramuru tornou-se um caminho escuro e perigoso aos transeuntes que ali passam, à noite. E, durante o dia, se transforma em um estacionamento. Um simpático senhor chega antes das sete da matina, traz banquinhos, baldes, estopas e a bolsinha onde guarda o pagamento dos motoristas a quem concede vagas em seu reinado de guardador do rebanho de carros.
Ele é o único dono daquele espaço onde exerce seu trabalho, de segunda a sexta. É um trabalho digno. É pena que seja naquele local que deveria ser bem cuidado, com uma placa de “proibido estacionar”, por se tratar de uma relíquia pública e ancestral da cidade.