O liberalismo se alastrou lá pela altura do final dos anos 40, a partir das mudanças nas forças mundiais de equilíbrio. Não que eu seja especialista no assunto. Não posso atestar narrativas que melhor ficam e bem mais seguras quando consideradas por historiadores, sociólogos, bisbilhoteiros ou quem mais possa delas entender ou dizer que entende. Acredito, porém, que basta ter o benefício de pensar com isenção e clareza sobre os acontecimentos postos na balança do tempo para compreender o eterno sonho de liberdade da humanidade.
Por certo que foi o poder da liberdade que motivou os adeptos da chamada “narrativa liberal”, como tão bem analisa Harari em seu livro “21 lições para o século 21”. Exausta de guerras, devastada por regimes totalitários, cansada de desacertos econômicos, ansiosa de respeito aos direitos políticos e sociais dos povos, e movida pelo desejo de respeito aos direitos de cada pessoa, a humanidade se jogou no liberalismo. Tentou substituir os campos de concentração, as cercas de arame farpado, as correntes prisionais de corpos e mentes pelo livre arbítrio, a livre-iniciativa, o livre-investimento, o livre-pensar.
E assim estavam as gentes postas em sossego (como a linda Inês de Camões) na crença de que tudo ia bem e o futuro sorria aos povos e países que adotaram transações liberais. Mas tudo foi mudando, os anos foram passando, o sonho virou pesadelo.
Nesta segunda década dos anos 2000, uma onda de desilusão com o liberalismo se apodera das mentes. Motivos há de sobra. Os resultados da livre iniciativa em seus investimentos no campo dos negócios, da política, da tecnologia e biotecnologia têm suas vantagens, garantem poder e dinheiro. No entanto, exibem pecados. Não faltam exemplos: a Inteligência Artificial é apontada como vilã da invasão de privacidade e controle autoritário de governos sobre os cidadãos; a expertise tecnológica das máquinas é tida como culpada pela perda de emprego da massa trabalhadora. E “otras cositas más”.
Neste triste momento em que o planeta se vê submetido a uma doença cruel que rouba o ar, coagula o sangue, enche o mundo de dor, horror e sofrimento, ao mesmo tempo em que exige medidas de prevenção tão severas que atingem e dificultam a sobrevivência econômica de tantos viventes, ninguém fica imune às muitas notícias e opiniões midiáticas, didáticas ou caseiras que tratam da batalha travada entre a saúde e a economia.
O resultado dessa luta é tão incerto quanto o que vai sobrar do sentido de liberdade e de humanidade e qual o destino dos seres na Terra.