Quando as deusas e os deuses eram outros que não os de agora, ou melhor, quando as pessoas ainda acreditavam nas deusas e nos deuses, e não nas celebridades e subcelebridades que falam através de canais do YouTube ou nas redes sociais, o carnaval era o modo de desafogar as mágoas, concedido a quem vivia na escravidão ou a quem mais estava obrigado ao ofício de servir, sem folga nem diversão.
O povo maltratado, miúdo e escravizado aproveitava para se esbaldar. Pena que isso durava pouco. Se se estendesse demais, quem sabe daria em uma revolução. O que, de modo algum, interessava àqueles que detinham as regalias de riqueza e poder.
Saber que assim começou o carnaval talvez seja consolador para quem ama os três dias de folia e brincadeira, como poetaram Humberto Silva e Paulo Sette na marcha-rancho “Até quarta-feira”. Botar o carnaval na conta da necessidade da famosa inversão de valores é uma desculpa excelente para cair na gandaia. Sem falar nos disfarces que fazem babar os interessados por sociologia: pobres podem ser ricos, homens podem ser mulheres, anões podem ser gigantes e tantas outras fantasias que se espalham pelas ruas e praças.
Mas, deixemos a história do carnaval para os historiadores, que escarafuncham rigorosamente as minúcias disso e daquilo; conhecem tudo sobre datas, arquivos, costumes. Vamos falar do que acontece no ano de 2021, tristemente esvaído na neblina cinzenta desta pandemia cruel.
Quem jamais pensaria viver para presenciar este mês de fevereiro? Fevereiro é o mês cantado por Jorge Ben Jor, naquela letra que mora no sonho de um país tropical e bonito. O mês crespo e colorido. O mês em que que o ar é sempre mais quente, as noites e madrugadas tremem com as baterias das escolas de samba. O mês de desafogo e alegria, ansiosamente esperado por toda essa gente que faz nele seu curto tempo de rei, pirata, marinheiro, sem se importar que tudo se acabe nas cinzas de uma quarta-feira.
Agora, fevereiro se transformou em um mês de sofrimento e de medo. O medo está em todas as criaturas, como um bicho acoitado. O sofrimento está por toda parte, nos hospitais gelados, nas casas trancadas, nos corpos invadidos por agulhas e tubos.
Parece que a canção de Vinicius de Moraes e Tom Jobim (que é uma das melhores e mais filosóficas coisas que já foram cantadas e escritas neste país) nunca foi tão apropriada: tristeza não tem fim; felicidade, sim. Neste ano, o carnaval de fevereiro se virou em uma triste, melancólica e imensa Quarta-feira de Cinzas.
Os artigos assinados não traduzem necessariamente a opinião de A Gazeta.