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Cinema

Dois filmes que celebram o desejo de liberdade e a aceitação da vida

"Thelma & Louise" (1991) tem pontos de contato com "Druk" (2020), ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro neste ano

Públicado em 

11 mai 2021 às 02:00
Bernadette Lyra

Colunista

Bernadette Lyra

Mads Mikkelsen em cena do filme
Mads Mikkelsen em cena do filme "Druk - Mais uma Rodada", dirigido por Thomas Vinterberg Crédito: Henrik Ohsten/Divulgação
Já muito se falou e se escreveu sobre "Druk" (2020), de Thomas Vinterberg. No entanto, não custa acrescentar mais alguma coisa a esse ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro neste ano. Mesmo porque filmes não são feitos para um descarte rápido, como bijuterias compradas em camelô. Filmes são para serem vistos e pensados como objetos que repetem a vida, tal como Shakespeare, em "Macbeth", diz que a vida é “uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria, sem sentido algum”.
Nesta frase do bardo inglês, cabe "Druk" inteirinho. Na falta de sentido da existência, quatro professores quarentões decidem experimentar doses de bebida alcoólica para dar um up em suas relações com os alunos. De início, tem jeito de comédia, porém evolui para o drama e a tragédia, à medida que cada um segue o rumo traçado pelas circunstâncias sociais e individuais.
Apesar de nada conhecer do modus vivendi de professores na Dinamarca, eu diria que as citações do filósofo Kierkegaard, bastante referenciado pelos personagens, tem em "Druk" a função de lembrar a condição cômica, dramática e trágica a que nós, os humanos, estamos destinados do nascimento até a morte.
Filme Thelma & Louise
Filme "Thelma & Louise" (1991) Crédito: MGM/Divulgação
Sem querer dar spoiler, mas já dando, um filme que me parece ter pontos de contato com "Druk" é "Thelma & Louise" (1991), de Ridley Scott. Se em "Druk" os quatro protagonistas são homens que desejam se libertar do tédio do cotidiano e buscam algo para se sentirem mais vivos, em "Thelma & Louise" o desejo de liberdade está unido ao desejo de fortalecimento e reestruturação íntima de duas mulheres, uma garçonete quarentona e uma jovem dona de casa que resolvem fazer uma pequena viagem para fugir da rotina entediante.
Porém, o link mais evidente é o congelamento da cena final nos dois filmes. Em "Thelma & Louise", após muitas peripécias, tudo acaba em fuga alucinada na estrada. Acuadas pelas viaturas da polícia, as duas amigas decidem não se entregar. E avançam com o carro, dando um salto no abismo. Em "Druk", o professor Martin, solitário, abandonado pela família e acabrunhado pela morte de um dos companheiros de experimentação etílica, se envolve no círculo de bebedeira, música e dança de seus jovens alunos, até que se lança alegremente no espaço como um pássaro em voo.
Dois filmes, dois saltos finais congelados, fixados no ar pela magia da câmera, que parece ela própria estar embriagada pelo desejo de liberdade desses personagens que aceitam a si mesmos e aceitam a própria existência, demostrando que, apesar de tudo, é preciso celebrar a vida.

Bernadette Lyra

É escritora de ficção e professora de cinema. Escreve às terças-feiras sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporâneos

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