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Crônica

Velha receita para não padecer de amor à toa

Não me lembro das circunstâncias que me levaram a escrever isso. Meus amigos dizem adorar estas mal traçadas linhas, mesmo os mais sinceros

Publicado em 04 de Maio de 2021 às 02:00

Públicado em 

04 mai 2021 às 02:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Coração partido
Caso aperte a saudade, sinta, há sempre espaço para sentir Crédito: Freepik
“Primeiro, deixe-se sofrer. É necessário. Negar a dor de um amor perdido é como negar o amor. Não faça nada. Apenas sinta. Tudo o que fizer estará errado. Jamais tente voltar porque não há o que buscar. Se o amor acabou é porque já não havia amor.
Evite a piedade, especialmente a própria. Recolha-se aos poucos amigos de fé, mas atentamente. Ocupe o lugar que não seja tão soberbo para não parecer paranoico e nem tão piegas para não parecer dor menor.
Se for preciso cante. Um samba ou um bolero. Neste caso não há como não atentar para a letra da música. Imagine que teu amor te abandonando e feliz com outro desejo, rasteja apaixonado por algo de ti.
Não se livre dos presentes, daquela agenda de couro. Eles são seu luto e a sua lembrança. Esta, quando habitar nas coisas, haverá de dar um colorido seu... O destino então terá devolvido quase intacto o seu coração arrancado do peito. Mas os corações reparam-se e se repetem.
Não procure razões. Estas não são da ordem da paixão. Não se minta dizendo que tudo seria diferente, se isso, se aquilo. Não se tem o dom de mudar os destinos do mundo. Sequer o seu próprio. Não se ache às tontas repondo o amor perdido. O seu amor próprio ainda não voltou para ficar, de modo que carece esperar. Não leia demais. Todas as frases parecerão escritas para você. E são.
Caso aperte a saudade, sinta, há sempre espaço para sentir. Não escreva, não telefone. Saudade é para ser sentida, e não pode ser desperdiçada. Além disso, levaria a inútil roupagem do arrependimento, filho da culpa que não é senão filha da onipotência.
Se vier a chorar, faça-o com dignidade e só. Uma legítima lágrima de amor não pode ser repartida. E talvez seja a única coisa realmente sua nesse momento. Enxugue-a com carinho. Não para guardá-la eternamente, mas para saber que ela pode ir-se (E estará sempre voltando, por isso ou por aquilo).
Guarde bem as suas lágrimas. Sempre se precisa delas. E não conte nada disso ao novo amor, quando, se vier”.
Não me lembro das circunstâncias que me levaram a escrever isso. Meus amigos dizem adorar estas mal traçadas linhas, mesmo os mais sinceros. Havia talvez sofrido uma desilusão de amor ou ou uma grande tristeza qualquer. Não, não nessa época.
Teriam os amigos sentido coisas assim, como eu, ou o contrário, que é a mesma coisa afinal. Ou foram gentis e tentaram me afagar porque talvez não concordassem ou coisa assim.
Teriam chorado, sozinhos no carro, como uma vez me ensinou meu grande amigo Vitor Santos Neves, que ainda hoje anda comigo, ou eu com ele, nunca se haverá de saber. Marien Calixte e Paulo Torre caminham comigo e nunca comentaram. Acho que não leram.
Marli e Kaká, não sei, mas acho que leram. Lurdinha Lordello gostou.
Pedro Maia e Paulo acharam piegas hoje de manhã. Mas salvariam com um copydesk . Erildo dos Anjos e Rubinho Gomes gostaram e enviaram para Zé Casado. Mirinha, a filha do reverendo, não sei dizer.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, não leria, mas bem que sabe ler.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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