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Cotidiano

Uma crônica sobre acolhimento

Acontece que, uma vez posto o desafio de se apaixonar por si, nossa criança sonhadora pode ficar perdida... Precisando de colo, de ser acolhida

Publicado em 02 de Maio de 2021 às 06:00

Públicado em 

02 mai 2021 às 06:00
Maria Sanz

Colunista

Maria Sanz

Mulher abraçando outra
Confesso, estou vivendo este momento de acolhimento. Navegando por incertezas e ardendo – até para escrever. Crédito: Freepik
Você e a sua; eu e a minha.
Desde menina nos ensinam que a verdadeira felicidade reside no amor romântico. Porque sua falta, nos dizem, significa ser incompleta, alguma coisa partida, alguma coisa que carece.
Por isso, cegamente, o perseguimos.
Mas na medida em que evoluímos, com sorte, entendemos que ser inteira, amando a si mesma é, na verdade, a única saída.
Acontece que, uma vez posto o desafio de se apaixonar por si, nossa criança sonhadora pode ficar perdida... Precisando de colo, de ser acolhida.
Cuidar dela, perceba, é olhar pra dentro com compaixão o bastante para fazê-la entender que nos enganaram!
Talvez por medo… Porque quase ninguém pode com uma mulher por inteiro.
Nota: confesso, estou vivendo este momento de acolhimento. Navegando por incertezas e ardendo – até para escrever.
– Verdade, fazer o quê?
Especialmente quando o estado é de transbordamento, quando os sentimentos estão vazando sem rumo ou rigor, contingentes e velozes, as teias de palavras podem tornar-se ineficazes. Ou em português claro, quando me sinto assim, de pernas trêmulas, fôlego curto e muito a dizer, fica difícil escrever.
Estou namorando a liberdade!
Apaixonada pela existência, encantada pela força da idade – tão precisamente manifestada por Simone de Beauvoir. Habitando um lugar novo, dentro de mim. De repente, confio cegamente no Universo e experimento a falta de tempo.
Tenho pressa! A inteireza é forte um desejo.
Respiro fundo e reencontro minha criança várias vezes ao dia... Ela que é obstinada pela satisfação de si mesma, carece sobretudo de paz – razão pela qual cultivo arte, música, dança, batuque, meditação... E assim, habilmente a convenço de que participamos da harmonia universal – o que é uma responsabilidade imensa. Pensa!
A cada dia sigo honrando meu compromisso com alegria de menina determinada e mística. Agradecida, mesmo mulher, sigo sendo filha – de Deus, do cosmos, meu pai e minha mãe – rio sozinha quando penso, por exemplo, que esse homem gigante me pertence. Porque ‘meu’ pai me ensinou o dom da realização e uma segurança psíquica (definitiva); e ‘minha; mãe me educou no amor aos enigmas, de mãos dadas com o mistério, invento a minha própria proteção.
Carrego a felicidade como vocação e aproveito o brinquedo que tiver nas mãos.
Aprendi com o tempo a me interessar pelo que tenho e entendi que as abstratas satisfações – fama, ajuste, reconhecimento, prestígio, conceito, etc., servem a quem se deixe escravizar pela Matrix – (sem julgamento).
Finalmente, a criança que nos habita é sempre uma espécie de artista, uma entidade que foi estrategicamente 'moldada' para caber no sistema em que vivemos. De modo que acolhe-la e despertá-la, pode sim ser difícil, mas sem dúvida, vale a pena.

Maria Sanz

É artista e escritora, e como observadora do cotidiano, usa toda sua essência criativa na busca de entender a si mesma e o outro. É usuária das medicinas da palavra, da música, das cores e da dança

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