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Aprendizados

Uma crônica sobre autotransformação

Chegou a hora de apontar a proa do barco para onde se deseja realmente chegar, rumar para a cabeça do dragão! Apesar do medo, desafiando o impossível

Publicado em 18 de Abril de 2021 às 06:00

Públicado em 

18 abr 2021 às 06:00
Maria Sanz

Colunista

Maria Sanz

Mulher na praia
Eu tomei um banho de sol daqueles, com a certeza mais humilde que existe: sentir-se iluminada não é uma conquista, é um retorno ao lar Crédito: Freepik
“Uma vez, ao entrar na farmácia de Shankaran Pillai, um cliente viu, do lado de fora, um homem abraçado a um poste de luz, com os olhos revirando-se loucamente.
Lá dentro ele perguntou: “Quem é aquele homem? O que há de errado com ele?”
Impassível, Shakaran Pillai respondeu: “Ah, aquele cara. Ele é um dos meus clientes.”
“Mas o que há com ele?”
“Ele queria alguma coisa para tosse, ela estava muito forte. Eu lhe dei o remédio adequado”.
“E o que você lhe deu?”
“Um caixa de laxantes e o fiz tomar aqui mesmo.”
“Laxantes para tosse! Por que você lhe daria isso?”
“Ah, por favor, você o viu. Acha que vai se atrever a voltar a tossir?”
A caixa de laxantes de Shankaran Pillai é um símbolo do tipo de solução propagada em todo o mundo atualmente para quem busca o bem-estar.”
Esse conto abre um dos livros mais sensacionais que já encontrei na vida.
E posso dizer que foi mesmo um encontro, porque ele gerou um “antes e depois”. Foi justo no final de semana que antecedeu o início da quarentena. Eu, que estava com uma festa de aniversário organizada para dali poucos dias, saí faceira para ir ao cinema, entrei na livraria acidentalmente, e ele me pegou. Coisa magnética, pulsão elétrica, negócio de magia...
Naquela mesma noite, quando comecei a leitura de “Engenharia Interior”, escrito pelo Sadhguru, fui arremessada para outra dimensão. (Ainda não voltei).
Note, a primeira providência do Sadhguru, usando este conto da farmácia, logo na introdução do livro, é destruir nossa percepção sobre a palavra “guru”. Diferente do que pensamos, a função do guru não é ensinar, converter, prescrever, sarar ou doutrinar, mas dissipar a escuridão. Lançar luz sobre a natureza da existência e seu infinito poder de autotransformação.
Isso mesmo: essa conversa é sobre autotransformação – que não tem nadar a ver com crescimento pessoal, nem com ética ou moral, mas com uma mudança dimensional na forma como experimentamos a vida.
A interpretação é minha e, em três pontos, fica mais ou menos assim:
um, “nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia”;
dois, impossível é o que ainda não foi tentado;
três, a saída está do lado de dentro. Ponto final.
Como nunca antes, nós, humanos, que até hoje gastamos todo tempo e energia possível tentando organizar, consertar ou controlar o ambiente externo, agora nos vemos diante da ausência dessa possibilidade. Primeiro, porque com a chegada de uma ameaça invisível, a lógica está suspensa, assim como estão suspensos os certos, os errados e as regras. De repente, a fonte da alegria deixou de ser a festa de sempre. De repente, o bem-estar já não advém da produtividade e da rotina. De repente nossa satisfação precisa ser redescoberta.
Pense comigo, corpo satisfeito significa saúde; mente satisfeita significa paz; emoções satisfeitas significam alegria; e assim por diante. De modo que nossa energia vital, ou satisfação interior, é exatamente o fundamental para a criação de uma sociedade pacífica e um mundo alegre.
A revolução que está em curso é pessoal!
Mas tudo isso depende de termos este controle nas mãos. Enquanto estivermos delegando a manutenção do nosso bem-estar para o farmacêutico, ou para o panorama externo apontado pelo telejornal, ou para os indicadores do mercado de ações, ou qualquer outra expectativa externas que escravize nossa vida interior, permaneceremos abraçados ao poste nos contorcendo de dor.
A única saída é torna-se consciente de que a fonte está do lado de dentro.
E que grande oportunidade estamos tendo!
Descobrir, com a repentina disponibilização da entidade “Tempo”, do que afinal nos nutrimos?
De onde vem nosso fortalecimento?
Quais são as raízes do nosso bem-estar?
O que estamos fazendo agora que não mais estamos sujeitos aos solavancos dos ponteiros?
Chegou a hora de apontar a proa do barco para onde se deseja realmente chegar, rumar para a cabeça do dragão! Apesar do medo, desafiando o impossível.
Ser pacífico, bem aventurado e alegre não deveriam ser esforços. Ao contrário, uma vez que nos capacitarmos para estas escolhas, deixaremos de viver a destruição, a nossa e a do planeta.
Eu acredito! Apesar de não termos controle sobre absolutamente nada lá fora, podemos influenciar o futuro a partir de nós mesmos, presentes na força que nos pertence por doação divina. De graça.
Nota final: hoje eu tomei um banho de sol daqueles. Cabeça para o céu, lambendo a vida, saboreando a natureza que hoje estava especialmente linda, com seus raios violetas colorindo o ar... E eu lá, jogada na areia, com a certeza mais humilde que existe: sentir-se iluminada não é uma conquista, é um retorno ao lar.

Maria Sanz

É artista e escritora, e como observadora do cotidiano, usa toda sua essência criativa na busca de entender a si mesma e o outro. É usuária das medicinas da palavra, da música, das cores e da dança

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