A vida só existe a dois. Dizem os sábios, graças a Deus os de fora dos ministérios, que isso é necessário e insubstituível. Desde o nascimento, para cumprir a ordem natural do universo, colocam-se a mãe e o bebê a chorar de dor. Isso, meu senhor, é o prenúncio da existência. Não sem antes transformar a espera do dia do parto em um turbilhão de ansiedade, mesmo com o parteiro assegurando, com aquele sorrisinho irônico no canto da boca, que não vai doer. Pois sim.
Uma vez, olha só, dava plantão no Pronto Socorro São Lucas com Carlos José e Luiz Fernando e precisei dar umas agulhadas no braço de um freguês dominical. Apontei a seringa e tchan. O paciente me olhou com desprezo e fez seu comentário: “Eu hein, nem doeu”.
Como sabemos, a vida é tocada aos pares, rumo a um destino conhecido, só não se sabe quando, mas com certeza nos deparamos a cada milésimo de segundo com direção e sentido. Isso é o que determina a saúde mental. Não é o que acontece nesse pandemônio desconhecido.
Tudo que existe e vive são momentos tomados dois a dois, a começar mãe e bebê, minto, espermatozoide e óvulo (excluo pragas, mosquitos e outras nojeiras que só encontramos a contragosto). O que Freud e demais inteligências nomearam self-objeto é a perfeição. Precisamos de um Alter para existir. Quem sabe não foi por essa determinação que inventaram o casamento.
Minha senhora, a solidão é a pior dos tormentos. Tangos, boleros, samba de enredo, batucada de bar. Até na cadeia a punição vem sob forma da “solitária” (ficar sozinho em um cubículo, no escuro). Falta a alteridade. Até Jesus e seus amigos na cruz levaram um papo.
Até a perversidade exige o Outro. Mesmo para o suicídio é necessário um Outro, no caso outro objeto. O bilhete de despedida da alteridade. Assim como não se pode se auto enforcar, pelo mesmo motivo. Foi para isso mesmo que Freud elaborou a função do Objeto.
Às vezes, o prazer pode ser pura maldade. Havia uma turma no colégio – jamais confessarei que era a minha – que amarrava uma nota de 50 pela pontinha com uma linha fina e deixava distraidamente na beira da calçada. Logo vinha o cúmplice da "sadomasoquice", olhava para os dois lados e quando se abaixava para pegar, nós puxávamos a linha com a nota.
A vítima, quando não corria, chorava, atravessava a rua, e gritava. A operação ocorria ao anoitecer de modo que até os adultos gritavam de medo ao serem fisgados indiretamente, digamos. Não é pior do que a morte?
Naquele tempo todo mundo morria, digamos. E sabia mais ou menos quando, criava e organizava as datas. Não era como é agora nessa inexplicável pandemia, que ninguém sabe nada, nem da vida, nem da morte, nem para onde correr. Ou muito pelo contrário. Ainda bem que o isolamento, como forma de proteção, vale para todas as doenças. Inclusive para este pandemônio.
E a velha e maravilhosa vacina sempre presente.
São duas tomadas. Olha o dois aí, minha gente!
Pena que a maioria dos idiotas implantados no governo são infinitos.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, já tomou a dele contra a raiva.