“Sonhei / Que estava sonhando um sonho sonhado / O sonho de um sonho / Magnetizado / As mentes abertas / Sem bicos calados” (“Sonho de um Sonho”, Martinho da Vila)
Houve uma época em que me imaginava vivendo numa cidade como Paraty ou numa vila como o Arraial d’Ajuda. A ideia era trabalhar como arquiteto, projetando casas, pousadas e restaurantes charmosos e ainda ganhar um extra pintando uns quadros e vendê-los principalmente para os turistas; enfim, viver livre, leve e solto e em contato com gente que tivesse o mesmo ritmo, a mesma leveza.
O roteiro era sempre o mesmo: trabalhando no corre-corre estressante da cidade grande, tirava férias ou mesmo numa viagem rápida durante um feriado prolongado e assim que desacelerava ao chegar num lugar como são essas agradáveis cidadezinhas litorâneas turísticas, vinha logo o sonho de mudar de vida.
Antes, porém, o sonho era outro: acabar o curso de arquitetura e imigrar para alguma metrópole de outro país, no qual arquitetos não fossem confundidos com engenheiros, onde as cidades não fossem tão desorganizadas como as nossas, e onde o nível de informalidade não fosse tão elevado como vemos por aqui.
Hoje não sonho com uma coisa nem a outra, apenas o simples desejo de ser vacinado o mais breve possível. Mas às vezes acho que só a vacina não será suficiente, e volta aquela ideia de arrumar a mala, pegar um avião e ir para fora, afinal quando se olha para o lado, vendo tudo que tá acontecendo, a gente se vê pensando que o Brasil não tem jeito...
Só que, ir pra onde? Já fomos um povo admirado, invejado pela sua alegria, descontração, irreverência, criatividade. Numa viagem ao exterior, bastava entrar num bar e dizer que era brasileiro que logo arrumávamos uma animada conversa sobre futebol, música, carnaval. No entanto, agora só exportamos uma imagem de dor, preconceito, contaminação viral massiva, destruição ambiental e assim ninguém nos quer, viramos párias no mundo.
“Sonhei / Que eu era o rei que reinava como um ser comum / Era um por milhares, milhares por um”.
Já passou da hora de sonharmos com um líder que seja de fato um estadista, um governante que tenha consciência da dimensão do cargo, e assim conduzir seu povo a uma sociedade mais justa, que combata a pobreza e não os pobres, que queira cuidar do nosso território, protegendo nosso ambiente, nossa natureza.
A impressão que dá é que este sonho, o de um país justo, não se realizará na minha geração. As “forças ocultas” ou “terríveis” que fizeram Jânio renunciar e depois Jango assumir, cuja consequência foi um triste período da história brasileira, acabou com muitos sonhos da geração anterior, alienando uns, revoltando outros, mas também expondo a sordidez e mesquinhez de muitos.
Até aonde a vista alcança, parece que os tais “muitos” agora não são tantos assim, mas não deixam de fazer barulho, arruaça, ameaças, lutando pelo retorno daquela deprimente realidade. Não devem ser pessoas que se permitam sonhar, pois o sonho é sempre algo pra cima, positivo, alegre. É provável que tenham pesadelos, e, ao acordar, queiram descontar suas frustações em outrem.
Sendo assim, imagina-se que são incapazes de, ao ouvir uma música, levitarem, ou ao ler um livro, transmutarem e, ao ver um filme, sorrirem. Devem ser pessoas tesas e, portanto, tristes tanto quanto invejosas da leveza dos demais, fazendo da amargura uma arma de revide.
“Na limpidez do espelho só vi coisas limpas / Como uma lua redonda brilhando nas grimpas / Um sorriso sem fúria, entre réu e juiz / A clemência e a ternura por amor da clausura”.
Tenho agora que criar condições para que meu filho, que faz parte da geração que virá, sonhe e faça acontecer! É legítimo que cada um tenha seu próprio sonho, buscando forças para realizá-lo, sempre de modo respeitoso com os demais, consciente da sua responsabilidade diante do mundo, tanto no seu microterritório (sua família, seu trabalho, seu bairro, sua cidade, etc.) quanto no macro (seu país, nosso planeta).
Ele precisará saber que “faço a minha parte”, como muitos dizem, é insuficiente. Pra sonhar com um mundo melhor, é preciso agir. Exponha suas ideias, faça diferente, faça melhor!
“Juventude alerta / Os seres alados”.
Algo me faz despertar, já não lembro o que sonhava. A realidade mostra sua cara. Mentira, corrupção, rachadinha, xingamentos, ausência de compaixão com o sofrimento de centenas de milhares.
“Ai meu Deus / Falso sonho que eu sonhava / Ai de mim / Eu sonhei que não sonhava / Mas sonhei”.