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Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública

Pandemia: entre o 'não mais' e o 'ainda não'

Principalmente no tempo que vivemos, o vazio se instala em nossas vidas, não temos mais o que tínhamos antes e ainda não sabemos como será ao final dessa travessia pandêmica

Publicado em 26/04/2021 às 02h00
Isolamento social durante a pandemia de coronavirus
O “time” pandêmico da pós-modernidade impõe uma velocidade que não está em sintonia com as estruturas estáticas da sociedade e as vivências relacionais subjetivas. Crédito: Freepik

Ernildo Stein, filósofo brasileiro, avalia o momento atual como marcado por transitoriedade, justamente porque "todos nós somos seres de dois mundos, situados em algum ponto entre a modernidade e o seu além. De alguma forma, o vazio entre a modernidade e esse tempo indefinido é o espaço ocupado pelo tempo de hoje, pois “nós somos seres do 'não mais' e do 'ainda não'. Nós não suportamos, de certo modo, o vazio”.

Principalmente no tempo que vivemos, o vazio se instala em nossas vidas, não temos mais o que tínhamos antes e ainda não sabemos como será ao final dessa travessia pandêmica. Mais do que sermos seres, definitivamente vivemos um tempo do “não mais” e “ainda não”, como se a vida estivesse em suspensão. Mas na verdade, ela não está. Ao final dessa travessia, as consequências desse período já estarão lá. Temos a impressão de haver um hiato vivífico, sem conotação salvífica.

A saída, pelo que nos resta, de um lado, é a permanência do “não mais”, mantendo-se como se fosse um projeto inacabado, ou o início categórico do “ainda não”, para cuja compreensão da vida nos moldes do presente como intenção de contribuir.

A pergunta que Stein lança sobre nós é: “como nós podemos sustentar esta situação de estar entre o ‘não mais’ e o ‘ainda não’? Ou o ‘não mais’ continua, ou então este ‘não mais’ já é realmente ‘não mais’ e então se iniciou o ‘ainda não’. Que 'ainda' não é este? Que novo tempo é este? Que características dar a isto? Como pensarmos este novo tempo? ”. Por mais filosóficas que sejam essas duas expressões, elas representam o que sentimos.

Para responder a essas indagações que podem nos ajudar a compreender tudo o que está acontecendo, é preciso termos a dimensão de que a vida é processo. Os processos de transformação que passamos naturalmente, em muitos dos casos são enfrentados sem muita percepção, mas nunca deixaram de serem processos que produzem vida em constante mutação.

Assim com os processos de cristalização, que solidificam formas de vida, que acabam por apresentar mais resistências durante o processo de transformação, mas jamais impedem a sua realização. O que tem assustado é que os processos de transformação produzidos em decorrência da pandemia são permeados por dores não vivenciadas e cicatrizadas, ao passo que não se tem o tempo adequado para internalizar as mudanças, estas abruptas, não havendo tempo suficiente para conceber-se o que está acontecendo.

O “time” pandêmico da pós-modernidade impõe uma velocidade que não está em sintonia com as estruturas estáticas da sociedade e as vivências relacionais subjetivas. Os processos dependem do elemento tempo para se firmarem e produzirem efeitos constitutivos de uma nova realidade. Uma das grandes questões é essa, que o tempo em que as coisas têm acontecido, e principalmente, a morte das pessoas e a forma como acontecem, sugerem um apagamento que é imensamente violador, e que “ainda não” temos condições de saber o resultado.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

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