“Enquanto todo mundo espera a cura do mal / E a loucura finge que isso tudo é normal / Eu finjo ter paciência” (“Paciência”, Dudu Falcão / Lenine)
A mente humana é algo simplesmente espetacular, um presente divino, que proporcionou que o homem chegasse até o nível atual de desenvolvimento científico, tecnológico e cultural. Tendo a razão lógica como guia e os ritos culturais como articulação coletiva, a sociedade vem avançando dia após dia. E de acordo com a ciência, ainda não se sabe mesmo quais são os limites da mente humana, até onde ela pode expandir-se em termos de conhecimento cognitivo.
Por outro lado, é muito tênue as fronteiras entre a razão objetiva e aquilo que se chama de loucura. Ao longo da História, por exemplo, diversas pessoas tidas como gênios, acabaram enlouquecendo, pelo menos segundo os parâmetros médicos de cada época.
Na maioria das vezes, atentos apenas ao que ocorre no corpo físico, tendemos a desconsiderar o fato que o cérebro também é um órgão, e como tal pode adoecer. Além disso, é comum sequer percebermos quando alguém está mentalmente doente, pois muitos sinais são considerados apenas manias, tiques, bobagens, algo para não ser levado a sério, afinal ou é inofensivo ou trata-se de alguma coisa que logo passará, ou as duas coisas juntas.
Entre as diversas patologias da mente, está o fenômeno do suicídio, cujas ocorrências crescem ano a ano. Em muitos casos, são pessoas que externavam estar aparentemente saudáveis, até o momento que cometeram o ato contra si próprias, porém com dramáticas consequências para os que faziam parte do círculo social delas, em particular seus familiares.
Nestes casos, é comum que as pessoas próximas assumam certa culpa, pois acusam-se de não ter notado algo errado e, por conseguinte, não ter feito nada para proteger aquele que se suicidou.
No entanto, se na posição do outro, muitas vezes não notamos os sinais de que algo errado ocorre na mente de alguém que está perto de nós, o que dizer destas próprias pessoas? Se elas perdem parte ou a totalidade da lucidez, como elas mesmas podem identificar o problema que lhes afligem? E, caso isso ocorra, como pedir ajuda? Temos, portanto, uma situação tão absurda quanto perigosa, pois alguém que está doente não reconhece seu estado e tampouco uma pessoa próxima é capaz de notar os sinais de tais distúrbios.
Daí que também há os casos de manipulação coletiva de pessoas que, acreditando encontrar-se em plena lucidez mental, foram induzidas a praticar atos que só podem ser explicados se considerarmos que elas ultrapassaram os domínios da razão e estavam enlouquecidas.
Se não for assim, como explicar os assassinatos cometidos pelos seguidores de Charles Mason em 1969 e o suicídio coletivo pelos seguidores de Jim Jones em 1978?
É claro que os dois eventos mencionados acima, pela própria natureza radical deles, são fatos chocantes com grande repercussão midiática, e que precisam passar por criteriosos processos judiciais para avaliar que tipo de punição se aplica àqueles que os provocaram, ao mesmo tempo que se lamenta o ocorrido com todos os que se tornaram vítimas de tais loucuras.
Mas quem, em plena sanidade, estando “do lado de fora”, pode imaginar a dimensão da loucura que apossou tais grupos? Como prevenir que tais insanidades aconteçam? Como evitar que caia sobre a sociedade o peso de não ter notado nem ter feito nada para impedir a tragédia, antes que fosse tarde demais?
Por outro lado, quando se observa, a posteriori, o papel dos líderes daqueles grupos, seus discursos, seus posicionamentos, a impressão que fica é que se tratam de pessoas não necessariamente insanas, mas astutas, que souberam como manipular aqueles que, já no limite da sanidade mental, eram iscas fáceis a serem conduzidas ao caminho vil que tomaram, agindo loucamente, enquanto se viam na mais “perfeita” normalidade.
Como a História mostra, as tragédias provocadas por Mason e Jones não foram as primeiras e, provavelmente, não serão as últimas.
Aliás, fico pensando se não é algo assim que está ocorrendo ao meu, ao nosso redor, nesse nosso mundo, neste país... Estaríamos vendo um líder astuto conduzindo pessoas para o caminho do mal, aproveitando o momento caótico, de fragilidade emocional delas, agindo teatralmente, fazendo com que elas acreditem estar em plena normalidade quando se mostram agindo insanamente, expressado na maneira mesquinha e violenta dos seus posicionamentos coletivos?
Ou será que somos nós que estamos enlouquecendo? Afinal não dá pra manter a sanidade mental vendo o estado atual de loucuras praticadas, e justamente por quem devia ser o exemplo de lucidez, equilíbrio e retidão ética e moral.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta