No início do mês, o Fundo Monetário Internacional divulgou a versão atualizada do “World Economic Outlook – Managing Divergent Recoveries” (
www.img.org). O documento de quase 200 laudas faz uma análise detalhada do desenvolvimento econômico e das políticas adotadas para recuperação da pandemia por todos os seus países-membros. O
Brasil, como já se esperava, deu vexame.
Na compilação de todos os aspectos, estima-se que o mundo terá, em 2021, um crescimento econômico na ordem de 6%, enquanto o crescimento nacional não deve ultrapassar 3,7%. Crescer menos que a média mundial significa aumento na desigualdade brasileira com o resto do mundo.
China, Índia e México, também emergentes, possuem projeções de crescimento na ordem de 8,4%, 12,5% e 5% respectivamente. Por categoria, a compilação de todos os países emergentes e economias de renda média tem projeção de crescimento de 6,9%.
Em outras palavras, a retomada pífia da
economia local empurra o Brasil para a fronteira com a categoria dos subdesenvolvidos, afinal, crescendo menos que seus pares, não pode ser tido como “país em desenvolvimento”, isso é ladeira abaixo. Não bastasse o crescimento econômico ridículo, a desigualdade social interna fica mais ostensiva. Na maior crise econômica já enfrentada, com drástica redução da renda dos trabalhadores, desemprego avassalador e redução de salários dos que conseguem manter seus postos,
o Brasil tem uma nova safra de bilionários na lista da "Forbes" ("Valor", 06/04/2021).
Tardiamente, apenas em 2021, Executivo e
Congresso Nacional se deram conta que a medida mais efetiva, rápida e barata para enfrentamento da crise sanitária é a vacinação da população. Quanto antes imunizada, mais cedo a economia inicia sua recuperação. O problema começou quando as vacinas ainda estavam sendo embrionariamente desenvolvidas por diversos laboratórios.
Com uma boa dose de negacionismo, repúdio à ciência e receio de apostar com o erário na promessa dos laboratórios, o Brasil deixou de encomendar futuras vacinas, ignorando o próximo desafio, previsível: a carência de oferta para a demanda global, assim que os imunizantes entrassem no mercado.
Nas últimas semanas, embora ciente da premente necessidade de compras do imunizante, mas sem qualquer noção de produção e da lei da oferta e demanda, além da crença de que leis resolvem qualquer problema, nosso Congresso vem debatendo medidas absolutamente ineficazes, cuja perda de tempo agrava a situação.
A primeira medida em debate, que no último dia 7 foi retirada de pauta no plenário (e ainda não tinha sido votada até o fechamento deste artigo), é o projeto de lei que permite a quebra de patentes dos laboratórios.
A ideia beira o ridículo, pois não bastasse a tragédia diplomática que isso traria ao país, com a violação de importantes tratados internacionais, seria absolutamente ineficaz, já que por mais que se saiba a “receita do bolo”, laboratórios pátrios teriam que adequar os métodos produtivos de suas estruturas e buscar os insumos sabe-se lá onde, o que demandaria gasto de tempo, exatamente o que se pretende combater com o projeto de lei.
A segunda medida, que ganha corpo (e já aprovada pela Câmara), é o projeto que permite a empresários adquirir vacinas diretamente no mercado, sem intervenção do Estado. Gente, estamos vivendo um estágio de oferta infinitamente menor que a demanda, a ponto de vendas para o futuro superarem a capacidade de produção ("Valor", 06/01/2021). Diante disso, diversos fabricantes que já possuem autorização para comercialização (são 8 laboratórios na fase 3 de desenvolvimento), foram categóricos em afirmar que só negociarão com governos ("Estadão", 07/04/2021).
A expectativa de alguns setores privados de importar imunizantes da Índia caiu por terra no final de março, quando aquele país suspendeu a exportação em razão do aumento de casos domésticos, o que forçou a priorização de sua campanha doméstica de imunização. A propósito, o único caso noticiado de tentativa de imunização pelo setor privado, ainda que ilegal, desaguou numa denúncia de falsificação do imunizante ("G1", 30/03/2021).
Discutem-se no Brasil medidas afásicas que, para terem eficácia, demandariam tempo, luxo que não temos. Enquanto isso, o governo não consegue encontrar orçamento para mais uma rodada de benefícios paliativos. Enfim, experimentamos medidas que não engrenam a atividade econômica, não geram ocupação e renda, tampouco evitam a perda diária de milhares de vidas. O Brasil dá uma verdadeira aula de como mal gerir os desafios surgidos com a
pandemia.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta