Na semana passada, Leo de Castro, ex-presidente da Findes e empresário bem-sucedido, na sua coluna semanal neste mesmo site, expôs, em termos contundentes, a ameaça provocada pelo processo de desindustrialização pelo qual vem passando o nosso país. Pela importância e alcance do tema, e também, ao meu ver, pelo fato do país estar a navegar às cegas e escancaradamente sem um projeto crível de futuro, vale a pena repetir, realçar e reforçar os argumentos levantados pelo Leo.
A indústria brasileira já chegou a responder por cerca de 35% do PIB nacional na década de 1980. Hoje, sua participação é de apenas 11%. Por mais que se argumente que em certa medida esse movimento possa ser interpretado como uma tendência de mudanças no setor em escala mundial, nos é difícil ou até impossível admiti-las como normalidade tendo em vista o exagero da queda. Aliás, vista como fora da curva em relação à média mundial.
O que observamos é que nos últimos 10 anos, mas mais acentuadamente em anos mais recentes, o Brasil está passando por um processo de “reprimarização” das suas atividades. Que nada mais é do que o contraponto da desindustrialização. Essa “reprimarização” é mais sintomática quando analisamos a nossa pauta de exportações, especialmente em comparações com países como a China, ou mesmo a Coreia do Sul, que seguiram caminhos inversos.
Vejamos o caso da China. Em 1980, o Brasil exportou cerca de 9 bilhões de dólares de produtos manufaturados. Mais do que a China, cujo valor chegou a 8,7 bilhões. Hoje a China exporta o equivalente a 40 vezes o que exporta o Brasil de produtos manufaturados: 2,5 trilhões de dólares contra apenas 60 bilhões do Brasil.
Mas, o inusitado ou incômodo é constatarmos que há quem defenda, no próprio governo federal, esse processo. Refiro-me ao presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Carlos Von Doellinger. Em pronunciamento feito em janeiro deste ano, Doellinger afirmava que o Brasil deveria, sim, reforçar e aproveitar as suas vantagens comparativas na produção de produtos primários e semielaborados. Posicionamento que lhe rendeu duras críticas do presidente da CNI, Robson de Andrade, em artigo no "Valor".
Nada contra o nosso agronegócio, que aliás vem tendo um desempenho fantástico. Mas, para o Brasil, ter uma indústria forte, dinâmica, contemporânea, complexa, inovadora e sofisticada torna-se questão fundamental, para não dizer crucial, para o seu desenvolvimento. Nesse aspecto, o tema precisa ganhar adesões e densidade.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta