As expectativas, muito provavelmente espelhando mais desejos do que perspectivas concretas e validação de fato, no tempo, que vislumbravam uma possível retomada da economia em V, parece agora sucumbirem aos caos da pandemia. Simbolicamente, a parcela visível do V detectada na segunda metade de 2020, serviu apenas para acalentar expectativas. Porém, sem o acionamento das engrenagens que normalmente fazem a economia reagir e caminhar mais seguramente. Ao contrário, o país se vê, agora, sob a ameaça de um fenômeno, que não é novo, chamado estagflação.
Como dizia o filósofo Santo Agostinho no seu livro “Confissões”, o passado já não é, fixando-se apenas na memória, o presente flui, pois vive-se sempre o presente, e o futuro se mostra através de expectativas. Trazendo essa reflexão para o campo da economia, ainda temos a estagflação apenas na memória, e de tempos bem próximos: 2015 e 2016. Para alguns, talvez nem na memória está. Mas, na fluidez do presente, podemos detectar elementos a alimentar expectativas do que possa acontecer. É onde encontramos “germens” de estagflação já operando e influenciando expectativas e decisões no presente.
Mas, o que significa estagflação? Casos clássicos de estagflação são reportados ao período pós Segunda Guerra na Alemanha, e nos Estados Unidos, nas décadas de 1960 e 1970. Acontece quando o processo inflacionário, ou seja, de aumento médio de preços, vem associado à queda geral das atividades econômicas. Exatamente o que aconteceu em 2015 e 2016. Nesses dois anos, enquanto a inflação acumulada chegou a cerca de 23%, as atividades econômicas caíram em torno de 8%.
A estagflação já é detectada quando comparamos a variação do PIB e da inflação nos últimos 12 meses. Enquanto ainda não recuperamos o patamar do PIB, que caiu 4,3% em 2020, a inflação já chega a 7,4%. E a tendência é que esse movimento se mantenha, principalmente por conta do recrudescimento da pandemia e lentidão na vacinação em massa.
Em economia, as expectativas desempenham um papel fundamental nas decisões que acontecem no fluir do tempo presente. Expectativas mais positivas, por exemplo, tendem a antecipar decisões de investimentos e gastos. Ao contrário de expectativas em queda, que normalmente fazem os entes econômicos retardarem ou mesmo desistirem de suas decisões pensadas para o presente. E é esse o cenário que se desenha para este ano, infelizmente.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta