A "The Economist", renomada revista mundial e que trata sobretudo de assuntos globais, em recente edição apresentou o resultado de uma pesquisa realizada com 50 especialistas em prospecção do futuro para os próximos anos, considerando já os impactos da pandemia. Para facilitar a compreensão, reuniu as percepções e projeções em 20 tendências consideradas relevantes. Nada que se distancie das transformações já anunciadas e esperadas, principalmente aquelas de natureza mais disruptivas. Mas o que chama a atenção é a aceleração desse processo e suas consequências por conta da pandemia.
Vamos ter pela frente, segundo a pesquisa, inclusive já em 2021, fortes transformações advindas sobretudo da intensificação da transição digital, que, acopladas às mudanças nas formas de produzir, distribuir e consumir bens e serviços, implicarão, por consequência, intensos impactos na sociedade e na economia. Alguns especialistas apressam-se em afirmar que se trata de um novo fenômeno, que se equipara à Renascença, que ocorreu na saída do mundo da escuridão da Idade Média. Teríamos assim, agora, uma nova Renascença.
Mas uma questão que já emerge como fonte de preocupações e reflexões, inclusive de quem se encontra hoje no topo do comando do capital global, diz respeito à evolução do próprio capitalismo. Como lidar, por exemplo, com a crescente e drástica redução da força de trabalho ocupada e das classes médias, principalmente dos países mais desenvolvidos, tendência a se intensificar com a transição digital e a automação? É importante lembrar que a dinâmica de uma economia de mercado, que tem por base o uso da moeda, pressupõe necessária e suficientemente uma demanda agregada crescente, ou seja, massa de renda que complete o ciclo também crescente da produção de riqueza.
Assim, não teria sido por acaso o alerta dado pelo fundador do Fórum Econômico Mundial, Klaus Schwab, na abertura do evento deste ano. Na avaliação de Schwab, a velocidade e o potencial disruptivo das transformações em curso vão exigir do próprio capitalismo o seu repensar. Aliás, Schwab usou uma palavra bem mais forte, em inglês: reset. Fazendo uso da analogia seria algo parecido com o que corriqueiramente fazemos nos nossos computadores, resetando-os quando emperram no exercício de suas funções.
Em verdade, o que acontece é que a pandemia, além de acelerar as transformações, tem trazido ao palco evidências mais claras das disfuncionalidades desse capitalismo do presente, mesmo que se mantenha a convicção e a crença de que este se coloca, ainda, como única via para o alcance do crescimento e do progresso global.
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