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Avanço da Covid ameaça retomada em V da economia do ES

Segundo analistas, ainda que o Estado adquira vacinas por conta própria, enquanto pandemia não estiver controlada em todo o país, um sinal de alerta será mantido, impedindo a retomada plena das atividades

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 15/03/2021 às 02h01
 A cidade do Rio de Janeiro retoma hoje (25) sua campanha de aplicação da primeira dose da vacina contra a covid-19 em idosos da população em geral. Hoje serão vacinados os idosos com 82 anos.
Vacinação drive thru na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), zona norte do Rio. Crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil

A poucas semanas do encerramento do primeiro trimestre de 2021, a expectativa de crescimento econômico prevista para o primeiro semestre do ano caminha sobre cordas bambas, principalmente em função do agravamento da pandemia do novo coronavírus, com aumento do número de casos e óbitos diários.

Embora no Espírito Santo ainda se tenha algum controle da situação, analistas reforçam que os problemas vivenciados em outros locais do país também podem ter efeitos sobre o que ocorre em território capixaba, de uma ou outra maneira.

As novas variantes do vírus, que se espalharam primeiro por Manaus (AM), têm se mostrado mais contagiosas. Além disso, como a maior parte da população do país não está imunizada, o risco de infecção aumenta consideravelmente. Em diversos pontos do país, o sistema de saúde já entra em colapso, levando à adoção de medidas mais restritivas.

Esse cenário atual pode frustrar a retomada em V que o Espírito Santo ensaiva passar. Esse evento ocorre quando o crescimento da economia é tão acentuado quanto à queda. Entenda lendo aqui.

Em janeiro deste ano, tanto a indústria quanto o comércio mostraram baixo desempenho em comparação a dezembro, o que pode sinalizar algumas dificuldades para manter o crescimento que se observava no fim do ano passado.

Com a diminuição das atividades, a arrecadação dos entes, inclusive da própria União, diminui. Consequentemente, os repasses feitos a Estados e municípios tendem a ter um valor menor.

Outros problemas também são vislumbrados. A analista de macroeconomia da XP, Rachel de Sá, observa, por exemplo, que, no ano passado, os Estados “tiveram uma colher de chá”, pois os pagamentos das dívidas foram temporariamente suspensos, houve mais empréstimos garantidos pela União, além de repasses emergenciais específicos para lidar com a crise, compensando as perdas de arrecadação.

Em alguns locais, ela aponta, os repasses, descontinuados em setembro, foram além do previsto, e permitiram até mesmo a formação de um caixa para os meses futuros.

“Isso lhes deu um belo fôlego, com o qual entraram neste ano. A questão é que essas medidas não solucionaram problemas de longo prazo. A cobrança das dívidas vai voltar, e a situação fiscal, no geral, não é positiva, afinal, a pandemia não acabou.”

O Espírito Santo, ela reforça, encontra-se numa situação ligeiramente melhor, graças à forte conexão com o comércio internacional, que vem movimentando, por exemplo, as indústrias e o agronegócio.

“Mas o desemprego segue alto, e a criação de vagas não depende só das commodities. Temos postos de trabalho sendo criados, porém, a quantidade é insuficiente, inclusive porque o número de pessoas voltando ao mercado também está aumentando.”

Rachel destaca que, no ano passado, o auxílio emergencial conteve um pouco a busca por emprego, mas não é o que se imagina para este ano. O governo federal deve começar a liberar, até o final da próxima semana, uma nova rodada do benefício, mas o pagamento terá valor menor que o ofertado anteriormente.

Além disso, a ajuda também será destinada a um público mais restrito, em função do limite orçamentário, que é de R$ 44 bilhões para as quatro parcelas. Em 2020, o programa custou mais de R$ 288,7 bilhões. No Espírito Santo, mais de 40% das famílias receberam pelo menos uma parcela.

Cabe observar que além de ter garantido renda às famílias vulneráveis, o auxílio também movimentou o varejo, cujas atividades podem perder fôlego nos próximos meses, inclusive diante da pressão inflacionária, que tem afetado diversos produtos da cesta de consumo da população.

Somado a isto, o setor de serviços, que responde por mais de 60% das atividades do Estado e do país, e, também, é o que mais emprega, ainda lida com uma série de limitações em função da Covid-19, vez que depende da interação entre as pessoas, conforme observa a economista Danielle Nascimento.

Ela reforça que a prioridade, no momento, deve ser vacinar a população, pois enquanto houver a continuidade do ciclo de abertura e fechamento de empresas em função da imprevisibilidade da pandemia, o mercado de trabalho não conseguirá se reerguer por completo.

“Apesar da crise, alguns setores tiveram resultado positivo nos últimos meses. E olhar para os segmentos que conseguiram crescer é uma boa forma de identificar os elementos necessários para que as demais atividades também possam avançar. Mas enquanto não houver controle do coronavírus, tudo é incerto, tudo é uma tentativa que apenas podemos torcer para dar certo.”

Na visão da economista Arilda Teixeira, os esforços devem ser combinados para garantir a imunização da população em todo o país, e não apenas no Estado. Ela reforça que ainda que o Espírito Santo, por exemplo, adquirisse a vacina e imunizasse os capixabas, a situação em outras regiões do país ainda manteria um sinal de alerta ligado, que impediria uma retomada plena.

“Uma característica que favorece o Espírito Santo é a conexão com o mercado internacional, que está bem movimentado. Isso dá um fôlego. Mas o Estado sozinho não é capaz de vencer a crise, enquanto o risco de contágio pela Covid não for estancado no país. Não vivemos numa redoma.”

Ela observa que, enquanto a maioria da população brasileira não for vacinada, as rotinas sempre estarão cerceadas pela necessidade de evitar o contágio, inclusive em função da circulação de novas variantes do coronavírus.

Aliada à demora na imunização, a especialista destaca ainda a incerteza política, que aumentou diante de fatores diversos, como intervenções do governo federal na Petrobras, tentativas de fatiamento da PEC Emergencial e a eliminação das acusações contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que voltou a ser elegível, e pode vir a disputar as eleições de 2022, concorrendo contra o atual mandatário, Jair Bolsonaro (sem partido).

As ações vem abalando a confiança de investidores, contribuindo para a elevação da taxa de câmbio, que reflete diretamente na inflação, visto que muitos produtos consumidos no país são atrelados ao dólar.

Diante disto, existe a expectativa de que o Banco Central eleve as taxas de juros antes do esperado, a fim de conter a alta de preços. Com isso, vai ficar mais caro tomar crédito.

“A perspectiva, no curto prazo, é de atividade fraca, e isso preocupa. No cenário mais otimista, teremos uma estagnação. Mas o PIB brasileiro, no ano passado, teve queda de 4,1% e, para zerar isso, teríamos que subir na mesma proporção. No momento, não vejo esse crescimento todo acontecendo.  Mas não considero, necessariamente, que vamos ter uma nova recessão, até mesmo porque ainda não saímos da última.”

Na segunda-feira (8), o Relatório de Mercado Focus alterou a expectativa de crescimento do PIB, que passou de alta de 3,29% para 3,26% em 2021. Isto é, cerca de 0,84% abaixo das perdas acumuladas no ano passado.

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