Dizem que no Brasil até o passado pode sofrer mudanças, e por consequência carregar incertezas. Quanto mais o presente e, naturalmente, o futuro. Ao que nos parece, desta vez, as mudanças nos comandos dos ministérios, promovidas por Bolsonaro, foram além do que se poderia supor ou prever. Surpresa? Até certo ponto, sim. Porém, previsíveis diante da própria imprevisibilidade e instabilidade de quem as promove.
O mais razoável talvez seria julgarmos essas trocas de cadeiras não como mudanças, já que estariam ocorrendo apenas na superfície dos seus respectivos contextos. Porquanto, sem a perspectiva de transformá-los. Portanto, nada além das aparências, uma vez que as mesmas não demonstram, pelo menos até então, objetivar nenhuma mudança de conteúdo, muito menos de narrativa. Essa já está dada e, pelo visto, será mantida.
Do ponto de vista analítico dos fatos, o que importa ou convém no momento, falando em perspectiva, é buscarmos decifrar e compreender o que não mostram ou demonstram as aparências reveladas. Ou seja, devemos ir além delas. E nesse aspecto efetivamente importa mais o olhar inquisitivo sobre as profundezas da narrativa em si do que o que se move na sua superfície.
O que quero dizer é que se a narrativa oficial, ou seja, a que é provida pela liderança do país, não muda na sua essência e rumo, pouco ou nada se pode esperar em relação às trocas de seus operadores. No máximo, podemos esperar movimentos de acomodação.
Vejamos o caso do Ministro das Relações Exteriores. Sem dúvida o mais emblemático, ao mesmo tempo que inusitado, pois o seu desastroso desempenho à frente da chancelaria brasileira transformou-o, nos últimos dias, em “bode” da sala. Da sala do país que se preza.
A sua substituição, necessária e mais que justificada, pode até amenizar as tensões, especialmente com a China e Estados Unidos, nossos maiores parceiros comerciais, mas não necessariamente deverá provocar mudanças classificáveis como significativas na política externa. Essa continuará a integrar e ser guiada pela narrativa oficial.
Da mesma forma, não é de se esperar que as trocas ocorridas venham a melhorar o ambiente geral do país, ajudar no combate da pandemia ou fazer a pauta de reformas econômicas avançar e destravar o crescimento do país. Tudo o que o país precisa, agora, mais do que nunca.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta