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Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública

A distopia genocida e as consequências das narrativas desumanizadas

As narrativas de um mundo imaginário, extremamente perversas, são utilizadas para legitimar políticas de extermínio em massa, que caminha para meio milhão de mortes em decorrência da Covid-19

Publicado em 12/04/2021 às 02h00
Atualizado em 12/04/2021 às 02h01
Pessoa usando máscara
A história que vivenciamos no Brasil já produz dores suficientes que causam consequências irreversíveis. Crédito: Shutterstock

Em 1868, Stuart Mill, ao proferir um discurso no parlamento britânico, afirmou: “É provavelmente demasiado elogioso chamá-los utópicos, deveriam em vez disso ser chamados de distópicos. O que é comumente chamado de utopia é demasiado bom para ser praticável; mas o que eles parecem defender é demasiado mau para ser praticável”. Referia-se a um lugar mau, o oposto de utopia. Teria sido a primeira vez que a palavra distopia fora utilizada.

Distopia é caracterizada por uma representação social antítese da utopia, como se promovesse vivências de uma “utopia negativa”. Em um lugar ou época imaginária em que a vida acontece sob condições extremas de opressão, desespero ou privação. São caracterizadas também pelo controle opressivo de uma sociedade ou uma desagregação social total, em um cenário de condições econômicas, populacionais ou ambientais totalmente degradadas em níveis extremos.

Mesmo se referindo a um futuro imaginado ou a um mundo paralelo, a maioria das distopias guardam conexão com o mundo real, em um engendramento de uma ação ou inação humana, seja por mau comportamento ou ignorância.

O momento em que vivemos se assemelha a uma distopia contemporânea que não somente estabelece uma conexão com o mundo real, como acarreta consequências severas e irreversíveis para a vida de todos nós. As narrativas de um mundo imaginário, extremamente perversas, são utilizadas para legitimar políticas de extermínio em massa, que caminha para meio milhão de mortes em decorrência da Covid-19.

Alardeiam um “kit gay” que jamais existiu, mas em contrapartida propagam aos quatro ventos um “kit Covid” que é real e ceifa vidas. Elegem uma ideologia de gênero imaginária como inimigo oculto, em detrimento de uma violência de gênero que produz milhares de vítimas dentro de suas vidas. Permanecem inertes na tomada de decisões responsáveis para sair da maior crise sanitária do país, mas se apressam em votações para manutenção do “status quo” de poder e privilégios particulares.

Assim como o final de uma estória distópica, com cenário devastado e muito ranger de dentes, a história que vivenciamos no Brasil já produz dores suficientes que causam consequências irreversíveis. Pensar que esse caos todo não tem um responsável é esquecer que as intempéries da vida existem. O enfrentamento delas precisa ser realizado com tomadas de decisões e desempenho de ações humanas.

Ainda que seja num mundo distópico, a diferença é realizada por alguém que seja encharcado de humanidade e que possa resgatá-la no momento do confronto. O grande problema é chegarmos ao final dessa saga e descobrirmos que a pessoa a quem compete fazer isso não tenha em seu âmago nenhuma gota de essência humana, e por isso tripudia sobre o sofrimento alheio.

*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

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