Acho que nem é necessário dizer que, após um ano de muito sofrimento e sacrifício e com o agravamento da pandemia, esta Semana Santa será especial, como nenhuma outra jamais foi. E uma das mensagens desta importante data para os cristãos é que o sofrimento e o sacrifício de Jesus na verdade foi uma mensagem de compaixão para todos os homens e mulheres.
Hoje, porém, ao contrário de Jesus, um mensageiro do amor ao próximo, vemos muitos mensageiros da morte. E o pior é que tais seres malignos se disfarçam justamente como pessoas do bem, cuja teatralidade é mesmo capaz de convencer a uma enorme multidão para que os sigam cegamente, enfeitiçados por verborragias ambíguas. São atores notáveis, merecedores até de um Oscar, pois dizem que defendem a vida, quando na verdade incitam mortes e mais mortes.
A ambiguidade como estratégia de lavagem cerebral já havia sido apontada por George Orwell em “1984”, afinal o Ministério do Amor era encarregado de controlar a polícia e praticar torturas, ao passo que os slogans do governo (Partido, no linguajar do livro) eram: “Guerra é Paz, Liberdade é Escravidão, Ignorância é Força”.
Aqui no Brasil nem é necessário dar algum exemplo atual, pois vemos diariamente notícias que deixam muito claro para aqueles que ainda não ficaram cegos, aos que conseguem enxergar a verdade, como é o caso de tudo aquilo apontado pela ciência, a certeza de que não é difícil praticar a racionalidade. Mas se todos os outros que seguem a ignorância disfarçada de inteligência já agem como zumbis, muitos deles que até pouco tempo estavam aqui conosco, como saber se a cooptação psicológica não atingirá alguns de nós?
Daí a importância de praticar a empatia, algo tão caro à mensagem cristã. Trata-se de uma doutrina que pode servir de escudo a tantos ataques que estamos sofrendo de vários lados, inclusive de alguém ocupando o lugar de líder, criando assim esse terrível clima de medo e pânico que estamos sentindo.
Rezamos para que tudo melhore, mas pelo que vemos, ainda pode piorar bastante, pois não falta gente trabalhando pra isso. Neste grupo não faltam pessoas que nada produzem para a sociedade, devendo viver de renda, pois só assim se pode explicar que tenham tempo para espalhar fake news, ir pra porta do STF ou da casa da mãe do governador soltar fogos de artifícios ou gritar ameaças, enviar mensagens fazendo intimidações. Não são apenas inúteis, mas também perigosos.
“Quem dentre vós não tiver pecado, atire a primeira pedra”, disse Jesus. Aqui ele fala do perdão. De fato, pra nós, às vezes é muito difícil perdoar. Mas podemos pensar que aí está a chance de mudar o jogo a nosso favor.
Em 2018 muita gente, no segundo turno, fez uma opção e depois se mostrou arrependida. Outros, porém, sabiam muito bem o que queriam: truculência, desmonte, destruição das instituições, e agora estão eufóricos com a esbórnia. Havia também aqueles que tinham certeza que dali não poderia vir nada que não fosse esse espetáculo de horrores que estamos vendo e vivendo. Só que neste grupo, os mais eloquentes não aceitam nenhum arrependido, não são capazes de praticar o perdão.
Os arrependidos encontram-se no limbo, ou melhor, no Purgatório de Dante, pois são considerados tanto traidores pelos “perversos irredutíveis”, como também são chamados de escórias por aqueles que se colocam como bastiões da coletividade, porém se vestem como “santo de pau oco”, pois para quem esteve do outro lado nenhum arrependimento é válido, só lhes restando mesmo total desprezo.
E assim vamos nos preparando para a guerra que virá. Por enquanto estamos numa guerra ideológica, mas nada garante que em 2022 o caldo entorne, as tensões aumentem, e cheguemos à barbárie que muitos temem, mas que muitos também desejam.
Imagino que algo assim ocorreu em diversas ocasiões no passado, tal como nos mostra a História. Em tais momentos, havia aqueles que trabalhavam para disseminar o ódio, aqueles que faziam de conta que nada estava acontecendo e aqueles que estavam esperando ver o que ia acontecer para então decidir para que lado ir. Nada diferente do que vemos hoje.
Mas também há aqueles que nunca largaram da cruz. Sabem que a luta é difícil, e que é preciso persistir. Não há vitória sem sofrimento e sacrifício.
Tenhamos compaixão com os arrependidos. E vamos com fé!
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta