Na sexta-feira da semana passada, dia 19, o presidente da República deu entrada no STF com ação contra a restrição de circulação decretada pelos governadores do Distrito Federal, Bahia e Rio Grande do Sul. No domingo (21), chamou os governadores e prefeitos que estão adotando medidas de restrição social de “tiranetes ou tiranos”. Até aí nenhuma surpresa, já que Bolsonaro foi o mesmo de sempre, repetindo o surrado discurso contrário ao combate à Covid-19, ao isolamento social e ao uso de máscaras e desacreditando da eficácia das vacinas.
Eis que na segunda-feira (22), o presidente convoca uma reunião, realizada dois dias depois, com os demais poderes para discutir o combate à pandemia. Na terça-feira (23), deu posse ao novo ministro da Saúde, cujo nome, anunciado há uma semana, ainda não havia assumido a pasta. Na quarta-feira (24), anunciou a formação de um comitê anti-Covid. Ao contrário do que acontecia em ocasiões semelhantes, usou máscara e apoiou a vacinação em massa.
O que teria acontecido nos últimos dias para que Bolsonaro ensaiasse uma mudança tão significativa de comportamento em relação à Covid-19?
Na terça-feira (16), o Datafolha divulgou pesquisa em que a rejeição a Bolsonaro na gestão da pandemia chega a 54%; e que 43% dos entrevistados consideram que o presidente é o maior responsável pela crise sanitária no país. A média diária de mortes dos últimos sete dias, no Brasil, decorrentes da Covid-19, bateu recorde passando de 1.965, no dia 16, para 2.364 no dia 23.
Na terça-feira (23), morreram de Covid-19 3.251 pessoas. No domingo (21), mais de mil empresários e economistas divulgaram manifesto exigindo racionalidade no trato da pandemia. No início do mês, a OMS já havia emitido alerta afirmando que “o Brasil tem que levar (a Covid-19) a sério, seja o governo ou o povo”.
Diante do desmoronamento do sistema de saúde – a lotação de UTIs no SUS chega a 96% e faltam medicamentos básicos para entubação de pacientes –, a Fiocruz anunciou que o Brasil passa pelo “maior colapso sanitário e hospitalar da história”. Os presidentes da Câmara e do Senado e até parlamentares da base aliada passaram a criticar o negacionismo do Planalto.
Foram essas as razões que motivaram o ensaio de mudança de comportamento do presidente com relação à Covid-19. Mas, convenhamos, ainda não há motivos para comemorações: Bolsonaro, na reunião do dia 24, voltou a falar no “tratamento precoce”, o novo ministro anunciou “continuidade” – já que “a política é do presidente, não do ministro” – e, no mesmo dia em que o Brasil bateu recorde de mortes, o Ministério da Saúde tentava alterar o critério de registro de óbitos repetindo manobra feita em julho para maquiar os números.
Fica, de qualquer forma, a esperança de que o presidente não tenha recaídas que o façam repetir que a Covid-19 não passa de uma “gripezinha”, que “está no finzinho”, que quem respeita o isolamento social é “maricas” e que temos de parar com “a frescura” e o “mimimi” de chorar pelos nossos 300 mil mortos.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta