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Pandemia

Seriam as festas clandestinas uma nova droga que vicia?

A gente começa a pensar se não é algo assim que ocorre com aqueles que desobedecem as recomendações sanitárias e se juntam em aglomerações

Publicado em 08 de Abril de 2021 às 02:00

Públicado em 

08 abr 2021 às 02:00
Tarcísio Bahia

Colunista

Tarcísio Bahia

No Centro de Linhares, festa com aglomeração vai até a madrugada
Festa com aglomeração flagrada em Linhares Crédito: Telespectador | TV Gazeta Norte
“No fundo eu sabia perfeitamente bem que não importa muito se você morre aos trinta ou aos setenta anos, já que em ambos os casos outros homens e mulheres continuarão naturalmente vivendo. Na verdade, nada poderia ser mais claro. Quer que fosse agora ou daqui a vinte anos, eu ainda morreria.” (“O Estrangeiro”, Albert Camus)
A esta altura da história humana, qualquer adulto, e até mesmo pré-adolescente, sabe quais são os riscos do consumo de algum tipo de droga. Se o maior de todos os riscos é a dependência química, que é capaz de acabar com a vida de quem faz uso de droga, os demais – colapso financeiro, comprometimento familiar, processo criminal – não são menos perigosos. E, ainda assim, nada efetivo até agora em nenhum lugar do mundo deu certo para frear o consumo de drogas.
Infelizmente, a lógica dos consumidores é que vale a pena o risco...
Do grande produtor ao traficante pé de chinelo, o risco também existe, afinal ao optarem pela vida na criminalidade, sabem que nem sempre o negócio dará certo, pois guerras com gangues rivais ou enfrentamento com a polícia trazem grandes possibilidades de acabarem feridos, presos ou mortos.
Infelizmente, a lógica dos bandidos é que vale a pena o risco...
Neste ponto, a gente começa a pensar se não é algo assim que ocorre agora com aqueles que desobedecem as recomendações sanitárias para evitarem aglomerações e fazer uso constante da máscara e se juntam em festas clandestinas no meio da pandemia. Provavelmente a lógica é a mesma: a de que vale a pena divertir-se na balada, pois nem todos ali se contaminarão ou a de que nem todos os contaminados adoecem, sofrem ou morrem.
Como se sabe, e já mencionado acima, nenhuma medida de enfrentamento à produção, ao transporte, à venda e ao consumo de droga por parte de governos, tanto na parte policial, quanto na sanitária, passando pela econômica e social, se mostrou eficaz, resultando quase sempre naquela percepção que se enxuga gelo. E algo parecido se dá com as tais festas clandestinas, considerando que apenas uma pequena parcela delas acaba sendo descoberta pelas autoridades e sendo noticiada ao público.
No caso das drogas, apesar dos sucessivos fracassos governamentais em lidar com o problema, não resta dúvida que sequer se pode pensar em desistir. Não importa se a luta é ingrata, aos governos cabe o papel de fazer do mundo (ou do município, do Estado ou país) um lugar seguro e justo para se viver, proporcionando dignidade para todo cidadão.
Cada jovem devidamente informado que, de modo consciente, não entra no mundo das drogas; cada pessoa que, recebendo algum tipo de ajuda ou tratamento para desintoxicação, é salva; cada apreensão feita pela polícia, seja ela pequena ou grande; cada golpe nas finanças das gangues pelos agentes públicos de investigação, fiscalização e controle; cada traficante preso, julgado e condenado; são todas vitórias importantíssimas, batalhas diárias de uma luta permanente.
O ideal, claro, seria que ninguém se arriscasse a experimentar a sensação de prazer que as drogas produzem, buscando encontrar diversão, alegria e felicidade com tantas outras coisas que o mundo nos oferece. Mas, pelo jeito, sempre haverá aqueles que gostam de viver perigosamente.
Trata-se, porém, de um grave problema social cujas consequências são desastrosas: quantas famílias se viram destruídas por causa de um parente viciado? Quantas mortes ocorrem no mundo por causa de guerras de traficantes, cujas balas atingem inclusive cidadãos comuns? E por aí vai...
Tudo indica que, tal como as drogas, as festas clandestinas em tempo de pandemia irão continuar acontecendo. E justamente por estarem proibidas, precisando ficar ocultas, elas em sua maioria acabam acontecendo em locais fechados, onde o risco de transmissão viral é ainda maior. Mesmo não tendo nenhum suicida nestas festas, pois o público é de gente que quer se divertir, o resultado é quase o mesmo pois estamos falando de pessoas que naquele momento não têm medo da morte, nem deles próprios, nem de quem com eles convivem fora dali.
É triste, mas infelizmente, a lógica é que vale a pena o risco...
E qual o papel das autoridades? Zelar pelo bem comum. Definir regras, impor limites, fiscalizar. Sem “mimimi”. Assumir a responsabilidade de que, mesmo sabendo que “todos nós vamos morrer um dia”, não se pode renunciar à vida, não se pode defender uma liberdade individual total, pois a escolha de um sempre acaba respingando em alguém que está ao lado. E, mais do que qualquer um, é o governo quem tem que trabalhar pela vida dos seus cidadãos, nunca, jamais, pela morte deles.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

Tarcísio Bahia

Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovação e mobilidade urbana têm destaque neste espaço

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