O escritor criativo é uma estranha criatura que obtém prazer nos devaneios partilhados. Não me lembro onde li ou escutei essa frase. Mas fico pensando nela sempre que alguém me indaga por que escrevo crônicas. Talvez seja essa a resposta. Talvez, para que exista uma crônica, nada mais é necessário que a partilha de um devaneio que faça estremecer a espinha dorsal de quem a escreve e de quem a lê.
Uma crônica precisa investir em trilhas que levam à alegria, à tristeza, ao amor ou então à tangência de um sentimento qualquer. Uma crônica necessita descobrir que há no ar balanços secretos que a fazem ir e vir com a deliciosa inconstância de uma criança que brinca no parque. Uma crônica tem de voar ao vento com uma delicadeza de plumas ou pode cair sobre a pele como uma carícia mortal da garra de um leopardo.
Longe vão os dias em que a crônica apenas servia para registro de acontecimentos envolvendo povos, reis e rainhas. Esse sentido permanece em alguns romances históricos. Segundo consta, a primeira crônica informativa, tal como hoje a conhecemos, apareceu em 1799, em Paris, no Journal des Débats. No Brasil, coube a José de Alencar a tarefa pioneira de reproduzir esse tipo de texto. Sendo ele um escritor romântico, não é de espantar que fosse temperando suas crônicas com pitadas de lirismo e fantasia, que depois se atualizaram e se tornaram a marca registrada de tantos. Com destaque para Rubem Braga, nosso capixaba tão especial e famoso.
Ivan Lessa - um dos cronistas que mais me tocam a espinha dorsal de leitora, desde os memoráveis anos em que se lia o Pasquim - tem uma frase indagativa: “Por que nós, brasileiros, fizemos da crônica uma especialidade da casa – feito moqueca de peixe ou tutu à mineira?”. Ele mesmo explica que é porque temos fôlego literário curto (apesar de exceções como Guimarães Rosa e Euclides da Cunha). E ele mesmo diz que não há nenhum demérito nisso.
Concordo. Porque a questão da literatura é o registro no tempo. E tempo “como uma avalanche, lança-se adiante, não tem mais uma parada”, como explica o filósofo Byung-Chul Han em “Favor Fechar os Olhos”, um livrinho que é um exemplo de fôlego curto: poucas palavras, pouquíssimas páginas e imenso dizer.
Assim, no fazer literário, ter fôlego curto é uma dádiva. É a prova de que quem escreve toma consciência da inevitável passagem do tempo que vai levando as coisas e as gentes na espuma dos dias. Daí a necessidade de registrar, da forma mais rápida e ofegante possível, o que se passou e o que se passa na vida e na imaginação.