A eleição para a Mesa Diretora da Assembleia Legislativa vai ser realizada apenas no dia 1º de fevereiro de 2027 e, por enquanto, não há um nome de consenso ou com forte favoritismo para presidir a Casa pelo próximo biênio.
Mas as movimentações já começaram, de forma incipiente, e surgiram ao menos dois possíveis participantes da corrida: Danilo Bahiense (PL) e Pablo Muribeca (Republicanos).
Em entrevista à coluna na terça-feira (3), Bahiense adotou um tom comedido:
Não manifesto interesse nem desinteresse (em ser candidato a presidente da Assembleia). Isso tem que ser discutido dentro de um grupo, não é uma pessoa chegar e colocar um nome
Danilo Bahiense (PL) Deputado estadual
O parlamentar do PL foi lembrado por outros colegas em conversas com a coluna, embora também com ressalvas.
“Há vários colegas com condições de presidir, está cedo ainda”, ponderou o próprio Danilo Bahiense.
“Tem que ser uma pessoa com equilíbrio para dar tratamento isonômico aos deputados, respeitando as diferenças. Temos deputados de centro, esquerda e direita”
Muribeca, por sua vez, soou mais empolgado, mas pontuou que está à espera de uma autorização para se colocar realmente como candidato a liderar a Casa.
Vou colocar meu nome para discutir, sim, mas só vou ser candidato depois que Erick e Pazolini me derem o aval
Pablo Muribeca (Republicanos) Deputado estadual
“Comecei a ligar para os colegas hoje, mas só para cumprimentar. Só vou pedir votos se eu for avalizado por eles”, ressaltou Muribeca à coluna, também na terça.
O governador eleito Lorenzo Pazolini e seu principal articulador político, Erick Musso, ambos do Republicanos, certamente vão entrar em cena na eleição da Mesa.
Embora apenas os 30 deputados estaduais possam votar, o desfecho desse pleito é fundamental para o poder Executivo.
Afinal, o presidente da Assembleia, seja quem for, terá o poder de atrapalhar ou facilitar a vida do governador ao pautar ou deixar de pautar certos projetos, por exemplo.
Pazolini e seus aliados mais próximos querem ver no comando da Assembleia um dos seus, mas isso não pode ser imposto.
O nome escolhido precisa agregar deputados de diferentes grupos políticos e matizes ideológicos. Ter um perfil de centro, ou menos inflamado, ajuda.
Foi assim que Marcelo Santos (União Brasil), por exemplo, foi reeleito em fevereiro de 2025 para presidir a Assembleia com o apoio do então governador, Renato Casagrande (PSB), e com o endosso unânime dos deputados, do PL ao PSOL.
Marcelo não vai estar mais no parlamento estadual no ano que vem, foi eleito deputado federal.
“Vai ser difícil alguém conseguir fazer o que Marcelo fez”, avaliou Danilo Bahiense.
Um deputado filiado ao PL, por mais que bem relacionado com os colegas, enfrentaria o peso da legenda, que afasta parlamentares de esquerda e de centro.
Bahiense é o atual 2º vice-presidente da Assembleia e, frequentemente, preside as sessões plenárias na ausência de Marcelo.
“Mas ele (Danilo) puxa mais para a direita”, observou um parlamentar considerado de centro.
Muribeca é do partido do próprio Pazolini, que precisa expandir o arco de alianças.
A hipótese de a mesma sigla ficar com as chefias do Executivo e do Legislativo pode não auxiliar na aglutinação de forças.
A coligação que elegeu Pazolini em 2026 foi bastante enxuta, contou apenas com Republicanos, PL e Democrata, um partido de menor expressão.
Apenas oito dos 30 deputados estaduais que vão integrar a Assembleia a partir de fevereiro de 2027 são formalmente da base do governador eleito, sendo seis do PL e dois do Republicanos.
Isso não quer dizer que todos os demais estão automaticamente na oposição ou são indiferentes a Pazolini.
O “magnetismo do poder” é forte e é muito provável que o número de aliados aumente em breve. Mas isso vai depender também de como os bastidores da eleição da Mesa vão ser conduzidos.
“O Muribeca até tem um trânsito bom com os colegas, mas acho que, pelo perfil dele, não agrega. É preciso uma pessoa com mais seriedade”, avaliou um experiente deputado estadual.
Muribeca é conhecido pelo estilo histriônico e por usar um chapéu de cowboy quase o tempo todo em que aparece em público.
O futuro presidente da Casa deve ser um dos 14 parlamentares reeleitos, mas com apoio de grande parte dos 16 novatos.
Bahiense e Muribeca estão entre os 14, mas nada está decidido ainda.
O vereador de Vitória Davi Esmael é o outro deputado estadual eleito pelo Republicanos em 2026.
“Vou respeitar a antiguidade do Muribeca, eu o ouvirei sobre como caminhar nesse espaço que ele já conhece. E tem também o PL, que tem seis deputados”, afirmou à coluna.
A aliança com o PL permanece depois das eleições e o Republicanos não vai competir com o PL
Davi Esmael (Republicanos) Deputado estadual eleito
Embora o Partido Liberal tenha a maior bancada no Legislativo estadual, seis não é um número de votos suficiente para eleger o presidente e tampouco oito, se somarmos os dois deputados do Republicanos.
A chapa para disputar a Mesa Diretora já deve ser composta por dez membros e, para elegê-la, são necessários 16 votos (os votos dos dez integrantes já são computados automaticamente como favoráveis à chapa).
Fica matematicamente claro, portanto, que o futuro presidente vai precisar de apoio para além dos partidos mais próximos a Pazolini.
REFORÇO DO PP
Um dos 16 novatos que vão chegar à Assembleia é o ex-prefeito de Mimoso do Sul Peter Costa (PP).
Ele foi filiado ao Republicanos de Pazolini por anos e migrou para o PP recentemente.
O PP estava na coligação do adversário do ex-prefeito de Vitória, o governador Ricardo Ferraço (MDB), mas na prática, a sigla mudou de lado entre o primeiro e o segundo turnos do pleito.
Peter Costa afirma que o partido, agora, “está unido”.
“Pretendo ser aliado (do Pazolini). Acho importante ter maioria na Assembleia para ajudá-lo a governar”.
Ou seja, aí já temos um exemplo de que o governador eleito e o candidato a presidente do Legislativo que ele vier a apoiar devem encontrar endosso para além do PL e do Republicanos.
OPOSIÇÃO PROPOSITIVA
Mas também haverá oposição a Pazolini na Casa. O Partido dos Trabalhadores elegeu três parlamentares: Açucena, Julio da Fetaes e Karla Coser.
Karla afirmou à coluna que pretende fazer uma “oposição propositiva” e que um eventual apoio do governador a um candidato a presidente da Assembleia não é impedimento, por si só, para votar no colega.
Vai depender, entretanto, do nome que será escolhido para disputar a presidência.
A deputada estadual eleita também ressaltou que espera que o futuro presidente mantenha a Assembleia independente do Executivo, e não subserviente.
Camila Valadão (PSOL), reeleita e campeã de votos para a Assembleia em 2026, também vai estar na oposição.
Ela pontuou que o futuro presidente da Assembleia tem que garantir o equilíbrio no plenário, sem cercear deputados, independentemente da ideologia e do grupo político ao qual pertencem.
O sentimento geral é que ninguém quer retrocesso. A Mesa (presidida por Marcelo Santos) foi equilibrada no sentido de garantir intervenções de todos os deputados
Camila Valadão (PSOL) Deputada estadual
Pazolini ainda vai ter que lidar com deputados de partidos que estiveram no palanque do adversário dele, Ricardo Ferraço (MDB), a exemplo dos parlamentares do MDB e do PSB.
A veterana Janete de Sá (PSB), que vai para o sétimo mandato de deputada estadual, afirmou à coluna que "votar no presidente da Mesa é uma coisa e buscar governabilidade é outra".
Ela não descarta votar em alguém eventualmente apoiado por Pazolini, mas, repetiu algo que a coluna ouviu muito: "depende do nome".
Janete, apesar de ser do partido do ex-governador Renato Casagrande, adiantou que não vai necessariamente fazer oposição à nova gestão: "Não vou sair declarando guerra ao governador, que foi legitimamente eleito".
+ colunas de Letícia Gonçalves