Quem observa atentamente o
Painel Covid-19 fica surpreso com a relação de bairros mais infectados pela doença no Estado. Em 10º lugar aparece
Feu Rosa, bairro carente e violento da Serra que está na lista fazendo companhia a regiões de classe média e alta da
Grande Vitória.
Por sinal, os nove bairros com mais notificações do novo coronavírus são redutos com população de alto e médio poder aquisitivo. Estão nesta lista, por exemplo,
Jardim Camburi,
Praia da Costa, Itapoã, Praia do Canto e
Jardim da Penha. Mas por que Feu Rosa, acompanhada de perto por
Vila Nova de Colares (71 casos, 14º lugar), bairro vizinho com características econômico-sociais semelhantes, tem um alto índice de contaminação pelo vírus tão temido?
Não há uma resposta apenas para esse fenômeno. O presidente interino do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN),
Pablo Lira, levanta algumas hipóteses para explicar o que está acontecendo naquela região da Serra.
O pesquisador, inicialmente, chama atenção para a trajetória do
novo coronavírus no Brasil. A doença, observa, chegou primeiro em grandes centros urbanos com ativo movimento de
transporte aéreo com o exterior, onde a pandemia começou. Pablo cita
São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Manaus e Brasília, onde a Covid fez as primeiras vítimas e acabou pressionando o sistema de saúde.
Num segundo momento, no qual está inserido o Espírito Santo, a doença surgiu inicialmente em bairros de classe média cujos moradores costumam viajar mais para o exterior e para grandes centros urbanos do país, inclusive para as cidades onde aconteceram as primeiras contaminações no país.
A fase atual da pandemia tem sido marcada pelo surgimento de casos da doença em bairros periféricos das maiores cidades, como o observado em Feu Rosa e Vila Nova de Colares, e no interior, a partir de cidades-polo, como Linhares,
Colatina, Cachoeiro e São Mateus.
Algumas características peculiares aos dois bairros da Serra são apontadas pelo presidente do IJSN como determinantes para a disseminação da doença. “É preciso considerar, por exemplo, o isolamento social, que nesses locais está menor do que a média de outros municípios”, destaca Lira.
Outro fator determinante, na análise dele, é a grande concentração populacional nessa região, que tem um comércio bem ativo e que propicia maior movimentação de pessoas, que acabam se expondo mais ao vírus.
“Além disso, em Feu Rosa e Vila Nova de Colares existe uma alta densidade domiciliar, isto é, são muitos moradores por domicílio, o que acaba facilitando a infecção”, afirma o pesquisador, que ainda aponta questões de sobrevivência para levar parte da população para as ruas.
Pablo Lira destaca que parte dos moradores desses locais presta serviço fora, principalmente em bairros de classe média e que apresentam casos elevados de ocorrência da Covid-19.
Por fim, o presidente do IJSN salienta que esses dois bairros estão localizados à beira de uma importante rodovia do município da Serra, o que acaba favorecendo a grande circulação de pessoas e a contaminação.
Procurada para comentar os números, a Secretaria Municipal de Saúde da Serra pondera que Feu Rosa é um bairro bastante populoso, mas no entanto o índice mais correto para avaliar esses números é a taxa de incidência, que, segundo o órgão, fornece uma comparação entre o número de casos confirmados em relação à população residente.
“A incidência em Feu Rosa está bem abaixo dos outros bairros da Grande Vitória citados: 491,50 por 100 mil habitantes”, ressalva a Secretaria, em nota.