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Coronavírus: teremos mais 66 dias difíceis no ES, diz infectologista

A projeção estatística, com base na taxa de transmissão do vírus que circula no Estado, foi feita pelo médico infectologista Lauro Ferreira Pinto em entrevista na manhã desta sexta-feira (29) à jornalista Fernanda Queiroz, da CBN Vitória

Publicado em 29/05/2020 às 12h06
Atualizado em 29/05/2020 às 17h01
Médico infectologista Lauro Ferreira Pinto fala sobre o novo coronavírus no Espírito Santo
Médico infectologista Lauro Ferreira Pinto fala sobre o novo coronavírus no Espírito Santo. Crédito: FRED LOUREIRO/SECOM-ES - arquivo

Metade da população do Espírito Santo poderá se contaminar pelo novo coronavírus até o mês de agosto deste ano. A projeção foi feita pelo médico infectologista Lauro Ferreira Pinto, em entrevista na manhã desta sexta-feira (29) à jornalista Fernanda Queiroz, da CBN Vitória.

O infectologista explicou que esta é uma projeção estatística, com base na taxa de transmissão do vírus que circula no Estado. Segundo ele, se confirmar, em até 66 dias, ou seja, até aproximadamente o dia 5 de agosto, metade da população capixaba deverá ser infectada pelo novo coronavírus. "Serão meses duros pela frente. Vamos viver essa tortura por mais dois, três meses", alertou.

De acordo com ele, ou se promove uma mudança no comportamento social, com o rigor das pessoas para evitar a transmissão do vírus, ou o pico da curva de crescimento da doença ficará cada vez mais distante. "Cada vez mais o alto da ladeira se afasta, é como se a gente andasse cinco passos e a ladeira aumentasse cinco passos à frente, fazendo com que vivenciemos essa tortura por mais 2 ou 3 meses. Assim, com esta projeção de 6 ou 7% da população contaminada, na expectativa de que a segunda fase do Inquérito Sorológico demonstre pelo menos isso, teremos ainda quase 4 milhões de capixabas para contaminar", afirmou.

Neste panorama esperado pelo infectologista, seria possível aguardar o colapso do sistema de saúde. "Existe uma hora no sistema que estrangula, porque o vírus anda veloz. O período de incubação dele é de 4 a 5 dias e não dá para treinar uma equipe nesse tempo. Eu sou otimista de que vai haver terapia e vacina, mas, no momento, a única arma que nós temos é impedir a propagação de uma pessoa para outra. Até isso ainda tem discussão, existem pessoas que acham que temos que deixar o vírus solto, fazendo o trabalho dele", disse.

HOSPITAIS DE CAMPANHA

Para o médico, a instalação de hospitais de campanha seria uma medida positiva, por acreditar que o trabalho seria então centralizado, inclusive economizando equipamentos de proteção individual. "O ideal é que o hospital de campanha fosse montado ao lado de um grande hospital de referência. Tem estádio, em outros locais, virando hospital. Essa não foi a alternativa do nosso governo, o qual eu sei que fez um esforço de ampliação de leitos. Mas sempre fui favorável aos hospitais de campanha, nós temos um gasto muito grande com EPIs e, ao centralizar em um grande hospital, conseguiríamos uma racionalização de uso", esclareceu.

CENÁRIOS POSSÍVEIS

Para Lauro Ferreira Pinto, é possível falar em três cenários diante da situação que vem sendo enfrentada no Estado. A primeira delas é a que ele considera como "o cenário do caos", em que as pessoas pensam que "já que estamos destruídos, vamos à guerra" e fomentam a que todos voltem às atividades normais. O segundo cenário é o do isolamento que já vem sendo mantido. "Este tem sido doloroso, já indo para 8 ou 9 semanas, até perdi a conta, sem ter, no entanto, invertido a curva. As pessoas cansam, existe um bate boca interminável, falhas na comunicação dos Estados com a União, uma população de informais que precisam trabalhar para comer e um auxílio emergencial que demorou para sair", explicou.

O terceiro cenário, na visão do médico, indicaria uma hipótese do que tentar fazer, que seria, para ele, a única hipótese que a ciência tem a oferecer, que é endurecer o isolamento.

"Tenho medo de ter um lockdown como vi em outros lugares,  que até desmoralizam a medida. Eu falei em reunião com a Sesa que acho que, se quisermos sair dessa agonia, a gente precisa de um pacto entre poderes, entidades médicas, imprensa, comércio, indústria, Ministério Público, que dê assistência aos mais vulneráveis e que consiga fazer algo coeso, conseguindo, em 2 ou 3 semanas, inverter a curva de contágio. Se não for possível, continuamos onde estamos por 2 ou 3 meses, com imunidade de rebanho aos poucos e stress do sistema de saúde. Não contaminamos ainda nem 7% da população, parece ritmo de carro travado, subindo uma ladeira, sem nunca parar de subir, e o alto dela está se afastando. Todos os países que fizeram lockdown com sucesso conseguiram deter a curva", finalizou.

VACINAS E TRATAMENTOS

Lauro Ferreira Pinto falou nesta entrevista sobre os medicamentos e vacinas que estão em estudo. "Já temos algumas boas notícias, nunca a ciência fez um esforço tão hercúleo em tão pouco tempo. Pelo menos uma centena de vacinas estão em pesquisa, algumas inclusive da China, país que podemos ter críticas pela forma como o regime se comporta, mas que tem avançado em tecnologia. Também temos boas notícias fora de lá, como de Oxford, em conjunto com um laboratório, que acredita ter resultados já em setembro. Há também um grupo americano que já teve resultados promissores, o que nos enche de esperança. Aparentemente não é impossível atingir imunidade a esse vírus. Alguns colegas na Europa dizem que em 2 meses teremos bons resultados, o desafio é distribuir em escala mundial", afirmou.

Além de vacinas, Lauro apontou o tratamento com anticorpos, que são usados, por exemplo, para tratar reumatismo, e que apresentam melhora na vida do usuário. "Há grupos no mundo trabalhando nisso, estou otimista. Semana passada ou retrasada saiu um antiviral novo nos Estados Unidos. Tenho otimismo, mas isso não muda o dever de casa que devemos fazer, que é o isolamento social. Mesmo em casa, a doença continua a crescer, porque é difícil manter sempre o mesmo padrão, as pessoas cansam e abrem brechas", finalizou.

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