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Leonel Ximenes

Crime na Mata da Praia: “Violência não é só dos pobres”, afirma padre

"Quando acontece na periferia, o discurso é que precisa aumentar a repressão. Quando acontece em um bairro rico, o discurso é de diálogo, respeito e tolerância", diz o coordenador do Vicariato para Ação Social, Política e Ecumênica da Arquidiocese de Vitória

Publicado em 22 de Abril de 2024 às 15:05

Públicado em 

22 abr 2024 às 15:05
Leonel Ximenes

Colunista

Leonel Ximenes

Padre Kelder Brandão
Padre Kelder Brandão: "A vida do pobre é tão sagrada quanto a do rico" Crédito: João Paulo Rocetti
O assassinato de um idoso por um advogado na Mata da Praia, por causa de uma divergência em torno de passeio de cachorros, despertou de imediato no padre Kelder Brandão uma reflexão. O crime banal, ocorrido neste sábado à noite (21), não é um lamentável fenômeno social exclusivo dos pobres moradores da periferia das cidades capixabas, pondera o sacerdote.
“É muito triste tudo isso. O fato mostra que a violência no Espírito Santo não é prerrogativa dos pobres que moram na periferia. O que muda é a abordagem do poder público”, afirma Kelder Brandão, que é pároco do Bairro da Penha e arredores, um dos locais de maior conflito social em Vitória e palco constante de confrontos entre a polícia e criminosos.
No meio desses confrontos, denuncia constantemente Brandão, estão moradores indefesos que não têm para onde correr e se socorrer, ficando muitas vezes expostos a tiroteios e invasão de seus imóveis pela polícia e até pelos próprios criminosos.
“Quando acontece na periferia, o discurso é que precisa aumentar a repressão. Quando acontece em um bairro rico, o discurso é de diálogo, respeito e tolerância. A vida do pobre é tão sagrada quanto a do rico”, adverte Kelder Brandão, que também é coordenador do Vicariato para Ação Social, Política e Ecumênica da Arquidiocese de Vitória.
"Matar se tornou algo tão banal quanto levar um cachorro para passear"
Kelder Brandão - Padre da Arquidiocese de Vitória
O padre, que não cansa de denunciar a violência que por vezes atinge supostos inocentes, critica também o comportamento das autoridades: “A cada dia, a gente vê que a vida é banalizada e a violência cultuada. O Estado o tempo todo estimula e produz violência. Basta ver as declarações dos agentes de segurança nas matérias veiculadas. Vejam quanto se investiu em armamento pesado no Espírito Santo, sob o pretexto da guerra ao tráfico”.
Manoel de Oliveira foi morto com um tiro na cabeça na Mata da Praia, em Vitória
Manoel de Oliveira foi morto com um tiro na cabeça na Mata da Praia, em Vitória Crédito: Divulgação/Redes Sociais
Violência do Estado, aliás, que muitas vezes tem a conivência da própria sociedade, segundo o padre “E a resposta da sociedade corrobora com essa prática. Quantos políticos se elegem com essa pauta de ódio e violência? Olhem as Câmaras Municipais, a Assembleia e o Congresso Nacional, como cresceu o número de parlamentares que, dia e noite, fazem apologia a violência como forma de solução para os conflitos. O resultado só pode ser uma sociedade cada vez mais violenta”, lamenta Brandão.

O QUE DISSERAM AS AUTORIDADES SOBRE O CRIME

No dia seguinte ao assassinato de Manoel de Oliveira Pepino, de 73 anos, pelo advogado Luis Hormindo França da Costa, de 33, o secretário de Estado da Segurança Pública, Eugênio Ricas, foi às redes sociais para falar sobre a “necessidade de tolerância e de se investir na cultura da paz”.
“É importante que a gente invista mais na tolerância, no diálogo, na cultura da paz. Só assim, a gente vai conseguir viver numa sociedade mais civilizada, numa sociedade de paz e que nossos filhos possam passear tranquilamente sem ter medo de sair e não voltar mais", escreveu Ricas.
O governador Renato Casagrande (PSB), por sua vez, afirmou que a troca de tiros no bairro nobre de Vitória “evidencia a cultura da violência presente na sociedade”. O governador também criticou a proliferação de armas: “É preciso registrar que a facilidade de acesso às armas torna desentendimentos entre as pessoas momentos de risco extremo. Combater a violência é dever do Estado, mas também de cada um de nós”.

Leonel Ximenes

Iniciou sua historia em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De la para ca, acumula passagens pelas editorias de Policia, Politica, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Tambem atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 e colunista. E formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo.

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