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Coronavírus

Mandetta, ex-ministro da Saúde, previu o pior momento da pandemia

Quando ainda era ministro, ele chegou a afirmar que se Brasil fosse negligente, poderia ter 180 mil óbitos decorrentes da Covid-19. Nesta semana, país passou os 170 mil mortos pela doença

Publicado em 27 de Novembro de 2020 às 05:00

Públicado em 

27 nov 2020 às 05:00
José Carlos Corrêa

Colunista

José Carlos Corrêa

Ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta
Luiz Henrique Mandetta foi demitido do cargo de ministro da Saúde em abril deste ano Crédito: Anderson Riedel/PR
Quando vejo que a quantidade de mortes em decorrência da Covid-19 ultrapassa 170 mil, me lembro do pronunciamento de Luiz Henrique Mandetta, então ministro da Saúde, em reunião no dia 27 de março. Disse ele: se o Brasil for competente em lidar com a pandemia, a quantidade de mortes pode chegar a 30 mil em um cenário otimista; se não for, em um cenário realista, os mortos chegam a 80 mil; e se for negligente poderemos ter 180 mil óbitos.
Passados oito meses, vemos os mortos se aproximarem dos 180 mil previstos por Mandetta. E isso nos leva a uma única e cristalina constatação: o país foi negligente no trato com a pandemia, a começar pela incompetência do governo federal.
Não adianta o presidente da República tentar jogar a responsabilidade no colo dos governadores e prefeitos porque é ele o principal responsável pelo insucesso das medidas de prevenção. É o presidente que, desde o início do contágio, nega a gravidade da pandemia – “é uma gripezinha” –, insiste em “receitar” um medicamento ineficaz para o tratamento da doença, prega o fim do distanciamento social – isso é coisa “de maricas” –, incentiva as aglomerações e tenta desacreditar os cuidados mais elementares como o uso de máscara. Enfim, é o presidente quem dá os piores exemplos de como o cidadão não deve se comportar durante a pandemia.
O agravante maior é que a postura do presidente influencia parte da população que acaba repetindo o seu mau comportamento. O resultado são as praias lotadas, as festas – clandestinas ou não – e outras aglomerações que impactam o número de infectados.
Os governadores e prefeitos, em geral, têm feito o que podem. O Espírito Santo é um exemplo de boa administração da pandemia, tanto com relação às restrições das atividades não essenciais como no monitoramento da evolução da contaminação e da disponibilidade de leitos de UTI. E, mesmo assim, vê a quantidade de casos da doença crescer, na chamada segunda onda de contágio.
Enquanto isso, o presidente da República já demitiu dois ministros da Saúde que discordaram das suas posições na condução da prevenção da pandemia, e mantém no ministério um militar que admitiu que não sabia o que era o SUS. E seu governo deixa, em um galpão em Guarulhos, 7,1 milhões de testes com prazos de validade que vencem em janeiro, total que é superior aos 5 milhões de exames realizados pelo SUS.
Com todos esses desacertos, fica fácil perceber de quem é a responsabilidade de o Brasil estar próximo de atingir o pior índice das previsões de Mandetta. Para o presidente, contudo, isso não importa muito porque, afinal – como ele gosta de repetir em tom de piada – todos nós vamos morrer um dia.

José Carlos Corrêa

É jornalista. Atualidades de economia e política, bem como pautas comportamentais e sociais, ganham análises neste espaço

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