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Política

É triste ver Bolsonaro debochar do país que preside, mesmo que não o lidere

Que Bolsonaro nunca deixou de usar um palavreado de botequim, já se sabia há muito tempo. Mas imaginava-se que ele fosse mudar quando assumisse o cargo de presidente

Públicado em 

13 nov 2020 às 04:00
José Carlos Corrêa

Colunista

José Carlos Corrêa

Presidente da República, Jair Bolsonaro durante plantio de árvore amazônica no marco do Programa Caixa Refloresta.
Presidente da República, Jair Bolsonaro durante plantio de árvore amazônica no marco do Programa Caixa Refloresta. Crédito: Anderson Riedel/PR
É triste ver um presidente da República ridicularizar a pandemia que já matou mais de 163 mil brasileiros, entre eles quase 4 mil capixabas. É triste vê-lo comemorar a interrupção de testes de uma vacina que está sendo produzida por um instituto renomado com mais cem anos de atividades voltadas para a ciência e a saúde. É triste vê-lo debochar do país que preside – mas não lidera – chamando-o de “país de maricas”.
Que Bolsonaro nunca deixou de usar um palavreado de botequim, já se sabia há muito tempo. Mas imaginava-se que ele fosse mudar quando, tendo vencido as eleições presidenciais, assumisse o cargo de presidente. Mas que nada. O linguajar chulo continuou sendo usado em pronunciamentos, em conversas públicas e em postagens nas redes sociais. Na última terça-feira, dia 10, o presidente, mais uma vez, extrapolou todos os limites da decência.
Nas redes sociais, Bolsonaro comemorou a suspensão dos testes da vacina Coronavac: “Mais uma que Jair Bolsonaro ganha” como se participasse de um jogo – contra a China e o governador de São Paulo – em que a saúde dos brasileiros é o que menos importa. Mesmo depois de esclarecido que a morte de um dos voluntários nada tinha a ver com a vacina, Bolsonaro foi incapaz de corrigir a grosseria.
No mesmo dia, em pronunciamento público feito em um evento de empresários, o presidente repetiu a sua ladainha de minimizar a pandemia, negando a sua gravidade, ao dizer que o Brasil “tem que deixar de ser um país de maricas”. Ou seja, rotulou, mais uma vez, os brasileiros que tomam os cuidados recomendados pelas autoridades de saúde – como o uso de máscaras, higienização das mãos e o isolamento social – de “maricas”, alardeando um preconceito inaceitável em qualquer sociedade que se diz civilizada.
No mesmo pronunciamento, Bolsonaro ainda criticou o presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, por ter cobrado, durante a campanha eleitoral, o fim do desmatamento e das queimadas na Amazônia. Para Bolsonaro, “apenas diplomacia não dá” e “quando acabar a saliva, tem que ter pólvora”. Mais ridículo que isso, impossível.
As grosserias de Bolsonaro acabaram, como não poderia deixar de ser, gerando críticas de todos os setores da sociedade, entre esses cientistas e políticos de todos os matizes ideológicos. A reação mais exemplar foi a do presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia: “entre pólvora, maricas e o risco à hiperinflação, temos mais de 160 mil mortos no país, uma economia frágil e um estado às escuras”.
Qualquer um teria tido o bom senso de pedir desculpas pelas asneiras que foram ditas. Menos, é claro, Bolsonaro, que nunca teve e nunca terá bom senso para coisa alguma.

José Carlos Corrêa

É jornalista. Atualidades de economia e política, bem como pautas comportamentais e sociais, ganham análises neste espaço.

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