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Saúde Pública

O mal que o presidente causa aos brasileiros

Enquanto ministros da Saúde são desautorizados e as autoridades sanitárias desrespeitadas, o Brasil se aproxima das 160 mil mortes e 1,2 milhão de infectados por Covid-19

Públicado em 

30 out 2020 às 05:00
José Carlos Corrêa

Colunista

José Carlos Corrêa

O presidente Jair Bolsonaro acompanhado dos ministros de seu governo, durante coletiva de imprensa para falar a respeito dos novos dados sobre a crise gerada pelo novo coronaví­rus (Covid-19), em Brasí­lia (DF), nesta quarta-feira (18)
O presidente Jair Bolsonaro acompanhado dos ministros de seu governo, durante coletiva de imprensa para falar a respeito dos novos dados sobre a crise gerada pelo novo coronaví­rus (Covid-19), em Brasí­lia (DF), nesta quarta-feira (18) Crédito: Mateus Bonomi/Agif/Folhapress
Não é só no empenho em acabar com os órgãos de investigação da corrupção que o presidente da República faz mal aos brasileiros. A sua atuação no combate à Covid-19 é mais lamentável ainda. Desde o início da pandemia, Bolsonaro se nega a ver a gravidade da maior crise sanitária enfrentada pela humanidade nos últimos cem anos. Ou, se vê, finge que ela não existe. Já chamou a Covid-19 de “gripezinha” e criticou o uso de máscara associando-o à covardia.
E o presidente não ficou só na retórica. Enquanto o então ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta recomendava o isolamento social e o uso de máscara, o presidente fez questão de promover e participar de aglomerações e abraçar quem estivesse por perto sem usar máscaras. Ou seja, fez exatamente o contrário do que as autoridades sanitárias de todo o mundo recomendam.
Em seguida, Bolsonaro resolveu embarcar em uma aventura inconcebível para um presidente de um país ao posar inúmeras vezes como garoto-propaganda de um medicamento ineficaz para o combate ao coronavírus, como comprova a maioria dos estudos científicos. Esse comportamento infantil e irresponsável acabou por empurrar para fora do governo dois ministros da Saúde, Mandetta e Nelson Teich, que preferiram sair para não compactuar com a aventura.
Nas duas últimas semanas, Bolsonaro voltou a prestar um desserviço à população ao contribuir para disseminar o descrédito com relação à vacinação. Primeiro, por motivos unicamente políticos e eleitorais, obrigou o seu ministro da Saúde – o terceiro nos tempos da pandemia – a cancelar um protocolo assinado no dia anterior de intenção de compra de 46 milhões de doses da Coronavac, a vacina desenvolvida pela empresa chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan. Segundo porque, contrariando legislação por ele mesmo sancionada em fevereiro, repetiu a bravata de setembro para reafirmar que a vacinação contra o coronavírus não será obrigatória.
Em ambos os casos o comportamento do presidente deveria ser exatamente o contrário. Com relação à aquisição das vacinas, todas elas são bem-vindas, não importa a procedência. E é evidente que qualquer uma delas só será adquirida se for aprovada pela Anvisa. E com relação à obrigatoriedade da vacinação, o presidente deveria contribuir para conscientizar a população sobre a importância da imunização, e não, como alertou a Sociedade Brasileira de Imunologia, lançar a desconfiança e o descrédito que podem prejudicar o controle da Covid-19.
Enquanto ministros da Saúde são desautorizados e as autoridades sanitárias desrespeitadas, o Brasil se aproxima das 160 mil mortes e 1,2 milhão de infectados por Covid-19. E, com razão, é apontado como um dos piores gestores da crise sanitária no mundo.

José Carlos Corrêa

É jornalista. Atualidades de economia e política, bem como pautas comportamentais e sociais, ganham análises neste espaço.

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