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Política

Uma a uma, Bolsonaro rasga as fantasias usadas nas eleições

Candidato que se elegeu erguendo a bandeira de combate à corrupção e defesa da Operação Lava Jato não existe mais. Da mesma forma, aproxima-se da velha política e desmonta ministérios técnicos

Publicado em 23 de Outubro de 2020 às 05:00

Públicado em 

23 out 2020 às 05:00
José Carlos Corrêa

Colunista

José Carlos Corrêa

O presidente Jair Bolsonaro em Sinop, no Mato Grosso
O presidente Jair Bolsonaro em Sinop, no Mato Grosso Crédito: Alan Santos/PR
Uma a uma, as fantasias usadas pelo presidente da República na época das eleições estão sendo rasgadas e substituídas por outras inteiramente opostas. O candidato que se elegeu erguendo a bandeira de combate à corrupção e defesa da Operação Lava Jato não existe mais. Da mesma forma, o candidato que dizia que que teria um ministério de alto nível técnico e afastado de interesses político-partidários está longe do perfil atualmente adotado pelo presidente.
O abandono das bandeiras de campanha pode ser explicado pela obsessão do presidente com a sua reeleição. Durante a campanha, Bolsonaro repetia, sempre que tinha oportunidade, ser contra a reeleição. Não demorou muito tempo para defenestrar de seu governo os ministros que mais se destacavam — e que poderiam surgir como pretendentes à presidência — como Luiz Henrique Mandetta e Sergio Moro.
Dos chamados superministros, só restou Paulo Guedes que, além de sabidamente não ter pretensões de ser candidato a coisa alguma, já teve suas asas tosquiadas várias vezes pelo presidente. Sua continuidade no Ministério da Economia pode ser explicada por ser ele a garantia de continuidade da política liberal que fez com que o mercado apoiasse e continuasse ao lado de Bolsonaro. Sua saída da pasta representaria a queda do último pilar que sustenta a credibilidade do atual governo.
Ao empurrar Mandetta para fora do governo, em plena pandemia da Covid-19, Bolsonaro abriu as portas para uma série de equívocos na condução do país na mais grave crise sanitária vivida nos últimos cem anos. Acabou por militarizar o Ministério da Saúde e ingressar no caminho da negação da gravidade da doença, do desrespeito às práticas de prevenção e da defesa de um medicamento comprovadamente ineficaz no combate ao vírus. Impossível errar mais do que já errou.
Ao defenestrar Moro do Ministério da Justiça, o presidente escancarou a sua intenção de obstruir as ações anticorrupção. Moro era o juiz encarregado de julgar as ações da Lava Jato, o símbolo maior de combate à corrupção no país. Bolsonaro convidou-o para ocupar a pasta da Justiça mas não demorou a torpedear as suas ações. Retirou dele o Coaf, o Conselho de Controle das Atividades Financeiras, e tentou interferir na Polícia Federal tão logo viu que seus filhos e amigos estavam na mira das investigações.
A mudança de posição de Bolsonaro já produz resultados palpáveis: a pandemia se aproxima dos números previstos por Mandetta para o pior cenário (se o governo não tomasse as providências necessárias no combate à doença), já que são 155 mil os mortos. E os casos de corrupção próximos do governo estão pipocando, como o do seu vice-líder no Senado flagrado com dinheiro na cueca.
O pior cenário da pandemia está próximo. Não vai demorar também a surgir outros escândalos de corrupção na esteira do casamento do governo com o Centrão. Infelizmente, porque o Brasil não merece nem uma coisa nem outra.

José Carlos Corrêa

E jornalista. Atualidades de economia e politica, bem como pautas comportamentais e sociais, ganham analises neste espaco.

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