Sair
Assine
Entrar

Coluna Abdo Filho

Energia solar: presidente da EDP defende debate sobre modelo atual

João Brito Martins assumiu o comando da EDP na América do Sul em julho de 2025. Ele afirma que o crescimento da economia capixaba atraiu a EDP

Publicado em 16 de Maio de 2026 às 03:12

Públicado em 

16 mai 2026 às 03:12
Abdo Filho

Colunista

Abdo Filho

João Brito Martins, CEO da EDP na América do Sul Divulgação/EDP

Em junho de 2025, há menos de um ano, portanto, João Brito Martins assumiu o comando da EDP na América do Sul. A multinacional de origem portuguesa é um dos maiores conglomerados de energia do mundo. O executivo é figura frequente em Vitória, afinal, a distribuição de energia no Espírito Santo é um dos contratos mais antigos da EDP, ainda da década de 90. No ano passado, foi renovado por mais 30 anos. Em um mundo que muda tão rápido, não é fácil ter um compromisso de tão longo prazo. Por isso, segundo Brito, é preciso olhar para os fundamentos.

"É um Estado que está organizado, as instituições funcionam... É um círculo virtuoso. Os investimentos empurram o crescimento da economia. É isso que a EDP enxerga, queremos estar aqui exatamente por isso. Quando há crescimento, a necessidade de energia é maior e os investimentos em distribuição vêm junto. Todo mundo ganha".

Na entrevista que segue, ele fala sobre transição energética, sobre a boa posição brasileiro em um contexto mundial de eletrificação, sobre o avanço da microgeração de energia solar (onde defende algumas revisões no regulamento) e até sobre fiação subterrânea nas cidades brasileiras. "É uma discussão que a sociedade tem que ter, afinal, não tem almoço grátis. Não tem certo ou errado, é uma escolha".  

Confira a entrevista completa com João Brito, CEO da EDP na América do Sul:


A EDP renovou, recentemente, o contrato para a distribuição de energia no Espírito Santo. Quais são as perspectivas?

O compromisso que temos, aqui no Espírito Santo, é com o dinamismo econômico. O Estado, na média, cresce mais que o Brasil e isso exige mais energia, para ter energia, precisamos fazer mais investimentos em distribuição de energia. Estamos em uma sociedade cada vez mais exigente e em um momento que, infelizmente, estamos tendo eventos climáticos mais extremos, o que nos obriga a trabalhar para que a rede tenha uma capacidade de resposta, na automação ou na resistência, maior. Crescimento econômico, transição energética e eventos climáticos mais extremos nos obrigam a reforçar os investimentos. Desde 2017 ou 2018 que a curva de investimentos no Espírito Santo é crescente.  


Em relação ao crescimento econômico do Espírito Santo, o que está no radar da EDP?

O Estado é um destaque quando olhamos para toda a federação. Tanto na atração de investimentos como na média de crescimento. É um Estado que está organizado, as instituições funcionam... É um círculo virtuoso. Os investimentos empurram o crescimento da economia. É isso que a EDP enxerga, queremos estar aqui exatamente por isso. Quando há crescimento, a necessidade de energia é maior e os investimentos em distribuição vêm junto. Todo mundo ganha.
     

Como estão os investimentos em energia renovável? Como está o negócio dentro do grupo?

O contexto geopolítico mundial está fazendo com que o tema de energia seja muito mais estratégico do que já foi. Faz com que continentes como Europa invistam muito em energia renovável para reduzir dependência de gás e de petróleo. Nos Estados Unidos, muito embora não apareça muito, os combustíveis renováveis estão com grande dinamismo. O mundo todo está em um contexto de mobilização por uma economia mais eletrificada. É um privilégio estar nesse setor, afinal, esta vai ser uma era muito boa para o setor de eletricidade. O Brasil, diante de todo este cenário, vive um contexto muito interessante. O Brasil é uma referência em termos de transição, mostra que é possível ter uma matriz renovável para geração de eletricidade. Entre 85% e 90% da geração elétrica brasileira parte de matriz renovável. É o que a Alemanha quer ter entre 2040 e 2050... Isso em um país grande, que tem um sistema elétrico resiliente e robusto. O que aconteceu nos últimos anos e que pode ter reduzido o entusiasmo com as energias renováveis por aqui? Hoje, o Brasil produz mais energia elétrica do que necessita. Isso se deu porque a geração de energia solar distribuída teve um crescimento muito forte nos últimos anos. Só que não se produz energia solar o tempo todo. Na hora do almoço, o Brasil produz mais do que consome. Quando chega no final da tarde, o sistema precisa acionar usinas térmicas, mais caras, para compensar a falta do solar que temos durante o dia. Em resumo: em uma parte do dia, sobra energia e, na outra parte, falta. Na indústria da energia, a produção precisa ser igual ao consumo o tempo todo. Quando desequilibra, para qualquer lado, temos um apagão. Para evitar isso o que temos visto é o chamado curtailment, que é quando, por excesso de produção, o operador do sistema desliga usinas solares e eólicas centralizadas. No ano passado, 20% da energia que poderia ter sido produzida acabou não sendo por causa do curtailment. Se perdeu. Se você vai em grandes zonas produtoras, principalmente no Nordeste, quando chega às 9h ou 10h da manhã, as usinas param porque o operador informa que não está precisando. Essa energia seria ótima de noite, que é quando ela falta, mas não temos estrutura para isso, por enquanto. Talvez o leilão de baterias (que armazenariam a produção excedente da manhã) ajude. O problema das renováveis é este: o corte da produção de 20% que inviabiliza investimentos.

Veja Também 

Imagem de destaque

A volta dos cruzeiros para Vitória: o nó a ser desatado

Imagem de destaque

Apex Partners faz captação de R$ 100 milhões e mira rodada internacional

Fachada do Hospital Meridional, em Cariacica

Meridional x Unimed Vitória: mais um capítulo, agora no Tribunal de Justiça

Vista aérea de Enseada do Suá, bairro onde fica localizado o Cais das Artes.

Pressão sobre os custos da construção sobe e metro quadrado tem tudo para ficar ainda mais caro

Como resolver?

Há várias situações. As baterias podem ajudar, mas, a meu ver, existe um problema estrutural maior. O sistema elétrico possui custos fixos e custos variáveis. O variável é o custo marginal de produção de um kilowatt/hora. O fixo é o seguinte: chego em casa, a qualquer hora do dia, e quero ligar uma luz. Aperto o interruptor e o sistema funciona. Funciona porque tenho rede disponível, usinas disponíveis para gerar. Portanto, tenho um custo fixo para manter um sistema pronto para funcionar quando eu chego em casa e aperto o interruptor. Precisa estar sempre neste equilíbrio. Outras indústrias jogam com a média, trabalham com estoques. Nós não podemos fazer isso, temos que estar sempre em equilíbrio entre oferta e demanda. Isso custa muito. O que está havendo? A tarifa, no Brasil, é monômia - pega o custo fixo, soma com o variável e divide pelo consumo. Em grande parte da Europa, por exemplo, a tarifa é binômia - a do custo fixo é diferente da do variável. A tarifa de acesso banca o fixo, que são os custos do sistema, e a variável banca o consumo que eu tive naquele mês. Aí, veja o caso de quem instalou painéis solares. Pela manhã praticamente não há consumo, ao contrário do que acontece na parte da noite, quando a casa está cheia. Exatamente o inverso do que acontece na geração de energia: os painéis produzem muito pela manhã, quando o sol está alto, e nada quando está escuro. Na forma como está regulamentado hoje, o gerador de energia solar recebe um crédito, por ter colocado energia no sistema pela manhã, para usar de noite. São estes créditos que fazem a conta baixar. É interessante, mas é preciso lembrar que o usuário se beneficiou do sistema, do custo fixo, para consumir energia na parte da noite e não está pagando por isso. Este é um dos problemas. É um evidente desequilíbrio que está sendo pago pelos demais usuários. A pequena geração de energia solar cresceu muito nos últimos anos, bastante incentivada pelo governo, e temos essa situação. Hoje, a energia solar brasileira tem capacidade instalada para quase metade do pico de consumo do país, para termos uma dimensão do tamanho e do impacto dela. Repartir o custo fixo, que é o risco do negócio, com todos seria o mais justo. Também seria interessante a criação de tarifas com preços diferentes para o uso de energia ao longo do dia. É dar os incentivos corretos e dividir os custos que são de todos com todos.          


Mercado livre de energia. Muito falamos disso, mas ainda está longe do dia a dia do consumidor. O que é e como impacta ou impactará a vida dos consumidores?

Parte do mercado, o de grandes clientes, já está operando dessa forma. O consumidor pode escolher o fornecedor de energia. Não pode escolher o distribuidor, mas pode escolher quem gera. A partir de 2027, o cliente de baixa tensão, que é o consumidor comum, poderá migrar para o mercado livre. Para os residenciais se dará em 2028. Vai surgir no mercado a figura do comercializador de energia, que, hoje, só atua nos grandes clientes. O consumidor vai observar preço, serviços... Mas aposto em uma sofisticação, não vai ser apenas preço. Tem a relação comercial, tem a questão do consumidor de energia limpa... Creio em um avanço da criatividade e, consequentemente, nas opções de produto.  


As questões climáticas estão mesmo impactando o negócio de vocês? Os dados apontam isso?

Há mais eventos extremos. O que mais nos afeta é vento, chuva e raios. Em ordem de grandeza: há dez anos, tínhamos três ou quatro por ano, agora temos dez. Mais que duplicou. É algo que foge bastante da média histórica. Estamos, por isso, reforçando as linhas e criando redundâncias. Sabendo que teremos problemas, como reduzir os impactos? É o desafio posto.


Muito se fala daquele excesso de fios nos postes. Tem alternativa? É possível passar tudo por baixo da terra?

É uma discussão que a sociedade tem que ter, afinal, não tem almoço grátis. A rede subterrânea entrega uma qualidade de serviço muito melhor. Se cai uma árvore, por exemplo, não tem interrupção. Só que é muito mais cara. A sociedade está disposta a pagar esse adicional? Estou falando de algo entre oito e dez vezes mais caro, que obrigaria a fazer buracos por toda a cidade, com impactos enormes. Por isso, digo que é um debate que a sociedade precisa fazer. Nós, da EDP, operamos as duas, não há qualquer problema. A Europa decidiu ter rede subterrânea nas cidades e colocou dinheiro para isso. Na Flórida, não tem rede subterrânea. Chega um furacão e todos sabem que ficarão duas semanas sem energia. A sociedade aceitou isso. A Califórnia, agora, por causa dos incêndios, está com um programa bilionário para fazer aterramento de rede. Não tem certo ou errado, é uma escolha.      

Veja Também 

Galpão da Zucchi Log, na Serra

Os maiores faturamentos do comércio atacadista e distribuidor do ES

Imagem de destaque

Porto de Vitória: Log-In comemora a expansão e apresenta as preocupações

Complexo logístico da 7Log, em Primavera, Viana

"É impossível repor perdas dos incentivos fiscais", diz presidente da Fecomércio-ES

Imagem de destaque

Transição energética na secagem de café do Espírito Santo

Imagem de destaque

A quantas anda o projeto da GWM no Espírito Santo

Abdo Filho

Graduado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2005, como estagiario de Entretenimento e Cursos & Concursos. Entre 2007 e 2015, foi reporter da CBN Vitoria e da editoria de Economia do jornal A Gazeta. Depois, assumiu o cargo de macroeditor de Politica, Economia e Brasil & Mundo, ja no processo de integracao de todas as redacoes da empresa. Em 2017, tornou-se Editor de Producao e, em 2019, Editor-executivo.

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Será que as eleições vão impulsionar um novo pacto de poder?
Antiga agência do Bradesco na cidade de Alegre onde serão realizados os velórios nas próximas três semanas
Velórios em cidade do ES serão realizados em antiga agência bancária
a repórter Renata Ceribelli, da TV Globo
Renata Ceribelli participa de painel sobre IA e mercado de trabalho na Rede Gazeta

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados