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Moderado e apoiado por militares, Decotelli deve melhorar relação com Poderes

Com perfil técnico, novo ministro afirma que o presidente Jair Bolsonaro não pediu a ele uma gestão "ideológica". O novo chefe do MEC também defendeu o diálogo com o Congresso

Publicado em 25/06/2020 às 19h50
Atualizado em 26/06/2020 às 13h48
Carlos Alberto Decotelli da Silva, novo ministro da Educação, foi presidente do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE)
Carlos Alberto Decotelli da Silva, novo ministro da Educação, foi presidente do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Crédito: Marcos Oliveira

Com perfil conciliador e técnico, Carlos Decotelli chega para comandar o Ministério da Educação como uma vitória de militares, na tentativa de buscar interlocução com os demais Poderes e a sociedade civil após a saída tumultuada de Abraham Weintraubsaída tumultuada de Abraham Weintraub

O ex-ministro deixou o cargo após uma série de desgastes com o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Congresso, onde se tornou desafeto do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Não à toa, Decotelli, o primeiro negro ministro do governo de Jair Bolsonaro, adotou tom conciliador nas primeiras palavras após ter a indicação confirmada pelo presidente Jair Bolsonaro. Ele afirma que foi procurado por Bolsonaro hoje de manhã, e que até ontem (24) estava dando aulas. "Fui pego de surpresa", contou.

"É o tom que eu sei fazer, vim para fazer o que eu sei fazer. O que eu sei fazer é sala de aula, é conversa, é gestão, é ajuste, é muito diálogo e construção de projetos a serem entregues para a educação. A minha prioridade será trabalho, trabalho, trabalho com gestão integrada", disse em entrevista à CNN Brasil.

AVALIAÇÕES

Pessoas da área de educação avaliam que a nomeação de Decotelli, o terceiro ministro da Educação do governo Bolsonaro, pode significar um distensionamento nas relações e uma reconstrução de pontes derrubadas por Weintraub e pelo antecessor, Ricardo Vélez.

Sua escolha tem sido interpretada em Brasília como uma tentativa de diminuir a influência do escritor Olavo de Carvalho na pista.

"O fato de ter participado do governo de transição direciona seu posicionamento de alinhamento com a linha ideológica do governo como um todo [sem olavismo]", afirma Andressa Pellanda, coordenadora-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação.

À CNN, Dacotelli disse que o presidente Jair Bolsonaro não pediu a ele uma gestão "ideológica". O novo chefe do MEC também defendeu o diálogo com o Congresso.

"Não houve nenhuma demanda, nenhuma fala sobre questão ideológica, até porque eu não tenho nenhuma competência ideológica. A minha formação é na área de gestão e finanças", afirmou o novo ministro. "Eu sou um gestor de finanças e administração. O presidente falou: aplique a ciência, aplique a integração, para podermos entregar a melhor política pública para a educação no Brasil. Não tenho competência para fazer adequação ideológica."

Ele também declarou que pretende fazer uma gestão com diálogo não só com o Congresso, mas com universidades e entidades de classe ligadas ao setor da educação - o que marcaria uma mudança de tom em relação ao seu antecessor, que teve uma relação ruim com estes atores.

"Eu tenho este hábito, esta tendência de sempre estar falando de maneira didática, pedagógica, conversando, dialogando, ampliando para a gestão pública as metodologias aplicadas em sala: ouvir, ponderar, analisar, respeitar e prosseguir", declarou.

HISTÓRICO

Após passar para a reserva da Marinha, ele seguiu carreira na educação, sempre nos campos de administração e finanças. Passou parte de sua formação no exterior, realizando seu pós-doutorado na Alemanha e o doutorado na Universidade Nacional de Rosário, na Argentina.

O novo ministro foi professor da área de finanças na Fundação Dom Cabral e na FGV (Fundação Getúlio Vargas), além de ter lecionado e ter sido criador do curso de pós-graduação em finanças da PUC (Pontifícia Universidade Católica) do Rio Grande do Sul.

Na direção do FNDE, entre fevereiro e agosto de 2019, teve uma posição apagada e criticada por setores da sociedade civil ligados à educação. O fundo é responsável pela maioria das ações e programas relacionados à educação básica do país. No entanto, durante sua gestão, teve dificuldades até para levar adiante licitações para abastecer as atividades.

Decotelli chega ao MEC sob o aval da cúpula militar, em uma sugestão dos almirantes do governo. O almirante Flavio Rocha (Secretário de Assuntos Estrategicos) teve papel essencial na aproximação do novo ministro com o presidente.

Decotelli é considerado próximo do próprio Bolsonaro. Integrantes do governo ressaltam sua lealdade em todos os momentos, mesmo quando afastado da presidência do FNDE e quando o governo sofreu baixas consideráveis, como a saída do ex-ministro Sérgio Moro (Justiça).

Ele deixou o FNDE no ano passado para dar a lugar a Rodrigo Sérgio Dias, indicado pelo chamado "centrão" na Câmara e o presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), como fatura política pela aprovação da reforma da Previdência. Dias, porém, acabou sendo exonerado no fim de 2019.

Ao precisar ceder seu cargo no FNDE, Decotelli ganhou a promessa de uma secretaria no próprio MEC - a Semesp (Secretaria de Modalidades Especializadas de Educação), que lida com o direito à educação de pessoas com deficiências, população do campo e indígenas, por exemplo. Descontente com a situação, sem alarde, ele acabou deixando o MEC.

PERFIL

Segundo o novo ministro, quando chefiou o FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), entre fevereiro e agosto de 2019, aplicou "gestão integrada e bom relacionamento com as entidades da educação brasileira". "É isso que foi pedido: que o que foi feito no FNDE no ano passado se estenda para a gestão do MEC", afirmou.

O novo ministro não deu detalhes sobre sua saída do FNDE, em agosto do ano passado. Disse apenas que recebeu a exigência de fazer "uma mudança operacional, uma reestruturação de equipe", e que nessa "reestruturação" voltou a ser professor universitário. Naquele momento, o ministro era Abraham Weintraub.

O ministro da Educação também não especificou medidas que pretende tomar ao assumir o cargo. Segundo ele, o grande desafio será planejar o restante do ano e a retomada de atividades da educação no período de pandemia de Covid-19.

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