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Deputada assediada por colega critica silêncio de Doria

Além do governador João Doria (PSDB), a deputada Isa Penna (PSOL) também criticou a falta de posicionamento do presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, Cauê Macris

Publicado em 19/12/2020 às 08h55
Fernando Cury se aproxima e encosta em Isa Penna, deputada do PSOL
Fernando Cury se aproxima e encosta em Isa Penna, deputada do PSOL. Crédito: Reprodução Alesp

A deputada estadual Isa Penna (PSOL) criticou na manhã desta sexta-feira (18) o silêncio do governador João Doria (PSDB) e do presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, o também tucano Cauê Macris, sobre o episódio em que foi apalpada pelo deputado no plenário do legislativo paulista.

Um dia antes, ela subiu à tribuna da Assembleia para dizer que foi assediada pelo deputado Fernando Cury (Cidadania) no plenário da Casa. Um vídeo mostra o parlamentar se aproximando da colega por trás e apalpando-a.

"Lamento o silêncio da presidência da mesa legislativa e do governador João Doria. Se eles acreditam de fato na democracia, tinham que no mínimo manifestar solidariedade e se comprometer", afirmou a deputada, em entrevista: "Acho que esse assunto não é digno de figuras tão magnânimas".

Isa também disse que Macris, como presidente da Assembleia, tem a prerrogativa de transformar o caso em um processo de ofício. "Ele ainda não o fez, sequer se pronunciou. Se ele não fizer, o prazo é mais para frente, o que é absurdo", disse.

Procurada pela reportagem, a assessoria do governador João Doria afirmou, no final da tarde desta sexta, que "o Governo de São Paulo repudia todo ato de violência contra a mulher", sem citar especificamente o caso da deputada Isa Penna na Assembleia.

Disse ainda que "desde o início da atual gestão, diversas ações foram adotadas para combater esse problema".

Assessoria de Macris disse à reportagem que ele irá aguardar a análise do Conselho de Ética, que é o foro adequado pra analisar o caso.

À reportagem a presidente do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Assembleia, deputada Maria Lúcia Amary (PSDB), disse que a previsão, por causa do recesso no legislativo, é que a decisão do colegiado sobre o caso seja tomada em meados de março.

Única mulher no Conselho de Ética, a deputada Amary afirma que trabalhará para que haja isenção no processo e a que a discussão não seja polarizada para "o lado ideológico e sim pela situação em si, pelo caso em si".

Também integram o colegiado os deputados Adalberto Freitas (PSL), Emidio de Souza (PT), Barros Munhoz (PSB), Wellington Moura (Republicanos), Delegado Olim (PP), Carlos Giannazi (PSOL) e Alex Madureira (PSD).

No vídeo, divulgado por assessores e deputados do PSOL, é possível ver que Isa tirou a mão de Cury e se desvencilhou dele. A deputada do PSOL pediu a cassação do mandato de Cury e também apresentou um boletim de ocorrência por importunação sexual.

Sobre o momento do assédio, Isa afirmou que sentiu a mão do deputado e o corpo dele atrás do dela. Na hora, conta, disse que reagiu questionando se o deputado, que segundo ela exalava um cheiro de álcool, havia enlouquecido. A situação ocorreu diante de Macris.

"Ele estava com cheiro de álcool. Não acho que isso tenha sido determinante na conduta do deputado, mas talvez tenha feito o deputado esquecer que ali tinha câmeras. Não sei em que mundo ele pode justificar como um abraço", disse.

Cury pediu a palavra após a exibição da gravação, negou ter cometido assédio e pediu desculpas por ter, segundo ele, abraçado a parlamentar.

Antes do episódio, a psolista relatou que enfrentava comentários sobre seu corpo após o deputado Douglas Garcia (PTB) ter postado um vídeo dela dançando funk. Quando atuou na Câmara Municipal, Isa disse que houve um episódio em que uma foto de seu bumbum foi publicada em redes sociais.

Pedido de punição

A deputada, que é advogada, defendeu o direito à ampla defesa de Cury e disse que, apesar de ter sido aconselhada de que seria possível enquadrar o episódio como estupro, decidiu não fazer do que houve uma caça às bruxas.

"Não vou compactuar com nenhuma forma de linchamento, de autoritarismo, mas vou pedir a punição dele, porque é meu dever", afirmou.

A deputada contou que recebeu o apoio de todos os deputados de oposição na Assembleia e também manifestações de apoio de membros da bancada evangélica.

Do líder do governo, o deputado Carão Pignatari (PSDB), disse que ouviu: 'Eu não compactuo com isso não'. Ela afirmou que espera que esse apoio se mantenha até março, criticando a demora na análise.

"O que mais tem para ser apurado? É essa a questão que quero deixar para os deputados. O vídeo está nas redes da Assembleia Legislativa. Claro que tem prazos, mas até março? Isso passa uma mensagem no mínimo leviana não só da presidência da Casa, mas do governo do Estado que nem sequer teve a decência de se manifestar."

Além das manifestações feitas pela parlamentar, o PSOL também disponibilizou um abaixo-assinado pela cassação do mandato do deputado.

No texto, a parlamentar conta enfrentar uma rotina de assédio na Assembleia Legislativa e menciona casos de outras mulheres, como a deputada Talíria Petrone (PSOL-RJ) e Mariana Ferrer.

Isa também disse que pretende usar o caso como uma ponte para dialogar com homens e com toda a sociedade. "A gente quer apresentar um programa de combate ao assédio com formação de servidores públicos nessa área, para mostrar que a gente está aqui não só para denunciar e que é preciso conviver com as diferenças", disse.

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