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Publicado em 6 de fevereiro de 2026 às 13:58
Na maioria das vezes, o contato começa com elogios. Depois, surgem as trocas de intimidades e, por fim, culmina em ameaças. A sextorsão se aproveita da confiança da vítima, que mantém uma relação com o criminoso — presencial ou virtualmente —, até torná-la refém da própria imagem ao ser coagida a dar dinheiro para não ter fotos e vídeos íntimos expostos na internet. No Espírito Santo, dois casos recentes alertam para a prática do crime. >
Sextorsão não é exatamente uma tipificação criminal, mas o nome popularizado para os casos de extorsão em que o criminoso exige alguma vantagem, geralmente econômica, para não divulgar fotos e vídeos íntimos. Para conseguir o que quer, ele usa de violência ou grave ameaça, segundo explica Brenno Andrade, titular da Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DRCC). >
Na última semana, em Guarapari, um jovem de 20 anos foi preso sob suspeita de tentar extorquir a família da ex-namorada, de 17 anos, com a divulgação de imagens íntimas da adolescente em redes sociais e aplicativos de mensagem. >
Conforme esclarece o delegado, a vítima não precisa nem pagar para o agressor ser enquadrado no crime, que ocorre no momento em que o valor é exigido. Também na última semana, em Santa Leopoldina, um homem foi preso por exigir R$ 10 mil da ex-namorada, de 36 anos, para não divulgar vídeos íntimos do casal. >
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Segundo Brenno Andrade, o agressor pode pegar até 10 anos de prisão, de acordo com o previsto no artigo 158 do Código Penal. Nos casos em que, além da extorsão, o autor expõe as imagens, também pode responder por divulgação de cena de estupro ou nudez, cuja pena chega a 5 anos de reclusão.>
A Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp) não dispõe de levantamento específico sobre esse tipo de crime, indicando a frequência com que é praticado, mas o delegado diz que há períodos de altas e baixas. >
Nos dois casos recentes no Espírito Santo, os relacionamentos eram presenciais, mas a situação se tornou comum também no ambiente virtual, afetando particularmente meninas em contatos por redes sociais e plataformas, como o Discord e o Telegram. Nesses espaços, segundo conta a psicóloga Bianca Orrico, costuma haver o compartilhamento de imagens íntimas, que, depois, podem ser usadas para a sextorsão. >
"Nessa prática, os adolescentes são mais vulneráveis devido à falta de experiência e de noção dos riscos envolvidos. Eles estão na fase de descoberta da sexualidade ou de expressão da sexualidade, mas a internet funciona como uma praça pública — qualquer pessoa pode acessar", pontua a psicóloga, que atua em projetos de Educação da SaferNet (organização não-governamental que atua desde 2005 na manutenção dos direitos humanos na internet).>
Brenno Andrade diz que, embora o crime envolva a exigência de dinheiro, a sextorsão não tem como alvo uma classe social específica. O foco está no gênero — meninas e mulheres são as principais vítimas. Mas o delegado ressalta: elas não têm culpa. >
Brenno Andrade
DelegadoA psicóloga Bianca Orrico reforça esse mesmo princípio e avalia que a sociedade brasileira costuma culpabilizar a vítima, especialmente quando ela compartilha imagens íntimas. "É preciso mudar essa lógica. O problema está em quem ameaça, divulga. E é importante que a vítima não se sinta culpada e busque os meios apropriados de suporte.">
Quando se trata de adolescentes, é fundamental que a família estabeleça um vínculo de confiança. Por isso, ressalta Bianca, o diálogo não pode faltar, possibilitando que os filhos se sintam confortáveis para compartilhar suas experiências on-line sem julgamento e aprendam a navegar de forma ética e responsável. "Os pais devem acompanhar a navegação dos filhos e é importante que também sejam um exemplo on-line; os adultos nem sempre fazem um uso saudável da internet. Além disso, devem usar as ferramentas de controle parental", recomenda.>
Aos jovens, a psicóloga orienta que não compartilhem fotos e vídeos íntimos. Ainda que a pessoa que receba as imagens seja confiável, afirma Bianca, o dispositivo pode ser usado por outra pessoa que não vai ter o mesmo cuidado. Mas, se não puder evitar, o ideal é que não mostre o rosto ou outra imagem que possa identificá-la como, por exemplo, uma tatuagem.>
Bianca Orrico
PsicólogaMuitos poderiam dizer que o mais seguro é não fazer fotos e vídeos íntimos com quem se relaciona, mas a realidade aponta em outra direção. Brenno Andrade observa que, se há consentimento das partes, não há crime em produzir as imagens. Pode até ser desaconselhável, afirma, porém, no mundo real a prática é muito comum. O que o delegado sugere é que esse material não seja armazenado. Para quem teve as imagens gravadas e, agora, vivencia a sextorsão, é fundamental procurar a polícia.>
"A pessoa tem que registrar o boletim de ocorrência, trazer a materialidade, as provas da extorsão. Se tiver divulgação, se ela conseguir comprovar que isso foi divulgado, trazer também para a polícia e a gente vai adotar as medidas cabíveis ao caso. Mas nunca se sentir culpada pelo fato. A gente verifica aqui que muitas dessas vítimas se sentem culpadas, mas isso não é verdade. A gente tem que trabalhar para culpar o criminoso, obviamente.">
A SaferNet também tem canais na internet que ajudam vítimas. Para denúncias, basta clicar neste link e, se estiver em busca de orientações, a opção é o Helpline. >
Para conter o avanço desses e outros casos, Bianca Orrico acrescenta que o poder público precisa atuar mais fortemente na criação de políticas de prevenção e frisa que as plataformas digitais devem ser mais transparentes e rápidas na retirada de conteúdos que violam os direitos humanos, como esses que expõem a intimidade de vítimas de sextorsão. >
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