Elayne, Patricia, Janaina e Mercia fazem da ciência um instrumento de transformação por meio de pesquisas e projetos no ambiente trabalho
Elayne, Patricia, Janaina e Mercia fazem da ciência um instrumento de transformação por meio de pesquisas e projetos no ambiente trabalho. Crédito: Fotos:Acervo pessoal/Arte:Camilly Napoleão

Mentes brilhantes: a força das mulheres na ciência e na inovação do ES

Nesta data dedicada a elas, A Gazeta traz um recorte da produção científica liderada por mulheres e a contribuição que deixam por onde passam

Tempo de leitura: 7min
Vitória
Publicado em 08/03/2026 às 07h00

De ideias para atividades no campo a soluções sustentáveis no mundo corporativo, mulheres lideram pesquisas e propostas de inovação no Espírito Santo. A ciência é a marca que muitas sustentam com a perspectiva de fazer a diferença e ocupar espaços que nem sempre foram vistos como femininos. Assim, neste 8 de Março, data histórica que lembra a luta pelos direitos delas, A Gazeta traz um recorte da produção científica de mulheres e a contribuição que deixam por onde passam. 

É curioso observar que, quando a polilaminina se tornou assunto comum nas mais diversas rodas de conversa, parece que muitos descobriram, naquele momento, a importância da ciência. E que ela pode ser produzida por mulheres. O nome de Tatiana Sampaio, que conduz estudos para o uso da substância no tratamento de lesão medular, ganhou projeção e reconhecimento. Mas a bióloga carioca não está sozinha no front das pesquisas: o Espírito Santo também tem a sua parcela de cientistas e profissionais que inovam e buscam soluções para os mais variados desafios. 

É o caso da bióloga Mercia Barcellos da Costa, que orienta uma pesquisa em que teias de aranha são usadas para verificar a poluição no ar. Coordenadora do Laboratório de Biologia Costeira e Análise de Microplástico (LaBCAM) da Ufes, ela conta que, com o material coletado pelas teias, é possível analisar tipos e quantidade de resíduos inalados diariamente. O estudo começou no campus de Goiabeiras, já se estendeu por quase metade dos municípios capixabas, mas a ideia é alcançar todo o Estado. Na universidade, uma preocupante constatação: 100% do ambiente estudado estava contaminado com microplásticos.

Paralelamente, outra pesquisa é realizada pela equipe do LaBCAM: contaminação na Ilha de Trindade. Apesar de estar situada a 1,2 mil quilômetros da costa — a mais distante do litoral brasileiro —, as primeiras visitas em campo demonstraram que o microplástico é um problema que também impacta o ambiente deste território capixaba e, considerando a cadeia alimentar que começa nos organismos da ilha, não demora muito para o resíduo estar servido à mesa da população. 

Mulher e ciência: bióloga Mercia Barcellos da Costa
A bióloga Mercia Barcellos coordena Laboratório de Biologia Costeira e Análise de Microplástico (LaBCAM) da Ufes com projetos inovadores. Crédito: Acervo pessoal

Com quase 40 anos de profissão, Mercia diz que o gosto pela ciência começou ainda na infância. Moradora de Santa Teresa na época, era frequentadora assídua do Museu Mello Leitão, um espaço na Região Serrana do Espírito Santo onde, para ela, não havia distância entre pesquisador e visitante.

"E eu sempre fui muito curiosa, gostava de observar a natureza, então, não tive muita dúvida de que eu seguiria nessa área. Apesar de o curso de Ciências Biológicas ser muito voltado para formar professores, desde o início procurei por laboratórios. Eu sabia que não ficaria só na sala de aula e sou muito feliz com minhas escolhas, com o que faço hoje", ressalta a bióloga, atualmente à frente de uma equipe de 13 pesquisadores. 

Questionada se, em algum momento, sentiu-se preterida por ser mulher, Mercia garantiu que não. "Fui aluna da Ufes, me formei aqui. Depois, fui contratada por concurso. Como aluna, sempre fui bem recebida nos laboratórios, desde os pequenos estudos que começaram ainda na graduação. Já interagi com diferentes grupos de professores e alunos e nunca me senti discriminada. No departamento em que estou hoje, há espaço e apoio para desenvolver trabalhos, tanto da instituição quanto das agências financiadoras", sustenta. 

Pesquisa premiada

Em outro campus da Ufes, no município de Alegre, a professora Janaina Villanova integra um grupo de pesquisa em que a linha principal de estudos, nos programas de pós-graduação de Ciências Veterinárias (PPGCV) e de Ciências Farmacêuticas (PPGCFar), está relacionada a compostos bioativos de origem natural, obtidos de plantas medicinais, para substituir ingredientes sintéticos.

A proposta é buscar alternativas aos antibióticos e, assim, enfrentar um problema de saúde global que é a resistência a esses medicamentos. Essa condição vem se apresentando tanto pelo uso indiscriminado do remédio quanto por contaminação cruzada, como, por exemplo, no caso em que as pessoas tomam leite com resíduo de antibiótico. 

Nesse contexto, um grupo de mulheres — Janaina e a professora Juliana Resende orientaram uma pesquisa de mestrado de Nayhara Guimarães — criou uma emulsão com óleos essenciais de orégano e tomilho para tratamento da mastite bovina (inflamação do tecido da glândula mamária das vacas) visando à substituição dos produtos sintéticos.

Mulher e ciência: farmacêutica e professora da Ufes Janaina Villanova
Professora da Ufes, Janaina Villanova é orientadora de pesquisa premiada. Crédito: Acervo pessoal

Após testes para avaliar as proporções dos óleos de modo a tornar a combinação mais potente, e com uma apresentação cremosa em vez de fluida como as opções disponíveis no mercado, os resultados mostraram-se efetivos em laboratório. Assim, além de cuidar da saúde animal — vacas, ovelhas, cabras —, a emulsão contribui para evitar a contaminação cruzada. 

A pesquisa inovadora foi premiada pela Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil (ACFB), mas ainda deverá avançar. O próximo passo, segundo Janaina, é encontrar parcerias para os ensaios clínicos nos animais. Após testar segurança e eficácia, a ideia não é produzir, mas realizar a transferência de tecnologia, buscando uma indústria interessada em fabricar o produto.

"Como a gente viu que é muito promissor o trabalho com bioativos, inclusive com três pedidos de patentes de compostos, optamos por abrir uma startup para facilitar os processos", afirma Janaina, que, no momento, está em Portugal após ganhar uma bolsa da Fapes para fazer pós-doutorado e dar prosseguimento às pesquisas. Ela também integra a Comissão da Farmacopeia Brasileira da Anvisa, uma atividade sem remuneração que, entre outros aspectos, normatiza as especificações de qualidade de produções farmacêuticas, função que a professora considera sua contribuição para a saúde pública. 

Formada há 28 anos em Farmácia, Janaina começou a dar aulas três anos depois e, para ela, também não houve nenhum obstáculo por ser mulher para desenvolver seu trabalho. "Eu nunca tive problemas, mas, infelizmente, eu sei que isso acontece com muitas; com algumas colegas, inclusive, já vi acontecer. Mas eu percebo hoje um avanço da participação feminina, o aumento no número de professoras em programas de pós-graduação e em coordenação. Meu grupo de pesquisa é, hoje, majoritariamente composto por mulheres e minhas principais colaborações são com outras mulheres", reforça. 

Elas são maioria na formação científica

De fato, Mercia e Janaina integram uma parcela significativa na formação científica brasileira: as mulheres representam 57% das pessoas tituladas com mestrado e doutorado e 58% das bolsistas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). 

Mas, embora o Brasil forme muitas cientistas, precisa garantir a equidade na carreira. As mulheres são a maioria entre doutoras, porém representam apenas 43% do corpo docente da pós-graduação, conforme informações da Capes. A desigualdade é maior em áreas consideradas estratégicas, como a engenharia, na qual somente 23% do quadro de professores é composto por mulheres.

Mulher e ciência: engenheira química Patricia Sviech Bocht
A engenheira química Patricia Sviech Bocht busca soluções para desafios em plataformas de petróleo. Crédito: Acervo pessoal

Se elas estão ocupando espaço no comando das salas de aula pouco a pouco, no outro lado, a formação também tem ganhado escala. A engenheira química Patricia Sviech Bocht lembra que, no início da carreira, há 25 anos, havia menos mulheres e mais dificuldades. Hoje, ela vislumbra maior participação em ambientes que são predominantemente masculinos. 

Patricia Sviech Bocht

Engenheira química

As mulheres estão ocupando papéis em todas as áreas, trabalhando onde querem

Atuando na área de engenharia de processamento da Petrobras há 20 anos, Patricia trabalha em Vitória e faz embarques eventuais para as plataformas em alto-mar onde, segundo ela, oferece suporte técnico quando surgem desafios operacionais. A engenheira já coordenou grupos de trabalho para desengargalar a produção e há sempre uma preocupação em buscar soluções técnicas viáveis para execução no menor tempo possível e, assim, garantir maior captura de valor para as operações da empresa. 

"As mulheres que desejam estar nessa área não devem desistir. Há um mundo de oportunidades, não só na indústria do petróleo, mas em muitas outras áreas da engenharia, tanto na parte técnica quanto na pesquisa e inovação", reforça. 

Elayne Galvão é uma dessas mulheres que enxergou oportunidade e lutou para conquistar espaço por sua competência, sem permitir ser dispensada pelo gênero. Hoje, engenheira florestal na Suzano, ela conta que sua trajetória começou ainda na iniciação científica, movida pela vontade de transformar conhecimento em soluções. 

"Desde então, venho construindo uma carreira que une pesquisa aplicada, desenvolvimento tecnológico e sustentabilidade,  sempre com o propósito de gerar impacto concreto no campo e na vida das pessoas."

Na Suzano, Elayne começou com atividades em Mato Grosso do Sul e, mais recentemente, se tornou coordenadora do Centro de Recursos de Campo (CRC) de Aracruz e Mucuri (BA). "Hoje, atuo como coordenadora de Pesquisa e Desenvolvimento, liderando um time de técnicos e lideranças de P&D que realizam experimentação e produzem dados em laboratório, viveiro e campo. Nosso trabalho transforma ciência em decisões estratégicas e soluções sustentáveis para o setor florestal", ressalta. 

A engenheira diz que, mais que liderar projetos, acredita em criar ambientes que favoreçam o crescimento das pessoas. "Apoiar, incentivar e impulsionar a trajetória de outras mulheres na ciência aplicada é uma parte essencial do meu papel como gestora, fortalecendo histórias que já existem com muita competência e que ganham ainda mais espaço quando encontram oportunidade e confiança", afirma Elayne, citando trabalhos de outras colegas, como Ana Cecília Malanski e Eliana Demuner, que propiciam melhorias nos processos da empresa. 

Mulher e ciência: engenheira florestal Elayne Galvão
A engenheira florestal Elayne Galvão é líder de um time que realiza experimentação e produz dados. Crédito: Acervo pessoal

 Para Elayne, construir um futuro mais sustentável também significa fortalecer pessoas, ampliar vozes e criar caminhos para que mais mulheres ocupem espaços de liderança e inovação.

Elayne Galvão

Engenheira florestal

E esse propósito ganha ainda mais sentido no momento que vivo agora: grávida de oito meses, carrego também a certeza de que cada decisão que tomamos na ciência ajuda a preparar o mundo que deixaremos para as próximas gerações

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