É enfermeira. Doutora em Epidemiologia (UERJ). Pós-doutora em Epidemiologia (Johns Hopkins University). Professora Titular da Ufes. Aborda nesta coluna a relação entre saúde, ciência e contemporaneidade

Polilaminina e o caminho indispensável das evidências científicas

A comunicação científica responsável é a base para a confiança da sociedade e esta não precisa escolher entre entusiasmo e rigor científico. É possível e necessário ter ambos

Publicado em 05/03/2026 às 04h30

Em momentos de grande comoção social, quando uma descoberta científica surge associada à possibilidade de recuperar movimentos em pessoas com lesão medular, é compreensível que a palavra “cura” apareça antes mesmo da conclusão das pesquisas. A ciência, no entanto, não é movida pela pressa, antes de tudo, ela é guiada pelo método. E é justamente esse método que protege vidas, evita frustrações coletivas e transforma promessas em tratamentos reais.

Porque a esperança precisa andar junto com o método científico. Celebrar uma inovação brasileira é legítimo. Mas transformar resultados iniciais em verdade estabelecida é um erro que já custou caro à saúde pública em diferentes momentos da história. A boa ciência faz-se com evidências robustas, transparentes e reproduzíveis.

O primeiro passo: plausibilidade biológica não é eficácia clínica. Toda nova terapia começa com uma hipótese baseada em mecanismos biológicos plausíveis. No caso da polilaminina, essa etapa foi cumprida com mérito. Há coerência entre o que se conhece da laminina e o papel que ela pode desempenhar na regeneração neural.

Mas plausibilidade é apenas o ponto de partida. Na saúde baseada em evidências, ela nunca é suficiente para indicar um tratamento para pessoas. São necessários estudos pré-clínicos e clínicos. Estudos pré-clínicos, em geral usando modelos animais, são necessários, mas não conclusivos. Eles indicam que vale a pena continuar.

Entretanto, a história da ciência mostra que a maioria das terapias que funcionam em animais não apresenta o mesmo desempenho em humanos. Isso ocorre devido a pelo menos três aspectos: a resposta inflamatória é diferente; a complexidade do sistema nervoso humano é maior; as condições clínicas reais são muito mais heterogêneas em humanos. Por isso, essa etapa abre portas, mas não autoriza conclusões.

Após essa fase e tendo bons resultados, a pesquisa caminha para as fases clínicas em humanos. Fase 1: segurança vem antes de tudo. Quando um estudo chega à fase 1 em humanos, a pergunta central não é “funciona?”, e sim: "é seguro?"

Essa fase envolve poucos participantes e tem como objetivo identificar efeitos adversos, definir dose e avaliar a tolerabilidade do tratamento. Muitas vezes altas doses dadas em animais não são seguras em humanos. Assim, qualquer narrativa que apresente esse momento como prova de eficácia distorce o processo científico.

Só na fase 2 começa a investigação da eficácia de forma sistemática. Nessa fase, buscamos entender: há melhora clínica mensurável? Quais pacientes respondem melhor? E o benefício supera os riscos? Sem essa etapa, não existe evidência de que o tratamento funcione.

Laboratório se prepara para produzir polilaminina em escala: Detalhe de frasco de Laminina
Laboratório se prepara para produzir polilaminina em escala: detalhe de frasco de Laminina. Crédito: Eduardo Knapp/Folhapress

A fase 3 é o padrão-ouro, é nessa fase que um novo tratamento é comparado com o que já existe ou, caso não exista nenhum tratamento, a comparação se faz com o placebo (substância sem o princípio ativo a ser testado); é o que chamamos grupo controle. Esse é o momento em que a ciência responde às perguntas que realmente importam para a sociedade: é melhor do que o tratamento atual? Em quantas pessoas funciona? Qual é o perfil de segurança em larga escala?

Sem estudos controlados, randomizados e com número adequado de participantes, não há incorporação responsável à prática clínica.

Ciência não é promessa. É processo. É preciso que os resultados sejam avaliados por pares e sejam passíveis de reprodutibilidade. Mesmo após a comprovação de eficácia, ainda existem etapas essenciais como: avaliação regulatória; definição de protocolos clínicos, ou seja, como esse medicamento será utilizado em hospitais, unidades de saúde e qual será o custo da aplicação em larga escala. Um tratamento só transforma realidades quando chega de forma equitativa à população.

No entanto, a comunicação científica responsável é a base para a confiança da sociedade e a sociedade não precisa escolher entre entusiasmo e rigor científico. É possível e necessário ter ambos.

Se a polilaminina confirmar, nas próximas fases, os resultados que hoje são iniciais, estaremos diante de um marco histórico da saúde brasileira. Mas essa conquista só será real se seguir todas as etapas que garantem que um tratamento seja seguro, eficaz e acessível.

A ciência não atrasa a cura. Ela impede que a falsa cura chegue primeiro. E, em saúde pública, não há compromisso mais importante do que esse.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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