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Câncer de mama: médicos do ES se mobilizam para zerar fila de tratamento

Médicos fundaram o Juntos Pela Mama - que visa oferecer tratamento e diagnóstico mais humanizado e sem burocracias para pacientes com a doença

Publicado em 01/10/2020 às 15h36
 Câncer de mama, autoexame
Câncer de mama: quando diagnosticado no início, tem 95% de chances de cura. Crédito: Divulgação

Quando o assunto é câncer de mama, a longa espera por atendimento pode custar uma vida. Médicos alertam que se a doença for diagnosticada logo no início, há 95% de chances de cura. Mas, ainda assim, esse é o tipo de câncer que mais mata mulheres no mundo.

Isso acontece porque as pacientes encontram uma série de burocracias e filas que atrasam o tratamento, fazendo com que muitas vezes o nódulo cresça tanto durante a espera que quando elas conseguem marcar a cirurgia, já não há mais tempo para agir.

Em 2020, devido à pandemia do novo coronavírus, o tempo de espera pelo diagnóstico pode ter sido ainda maior. De acordo com a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), de janeiro a julho de 2019 foram diagnosticadas 1.183 mulheres com câncer de mama no Espírito Santo. Já no mesmo período de 2020, esse número caiu para 898. Ou seja, 285 mulheres a menos - o que, para especialistas, pode significar uma subnotificação dos casos.

Com o objetivo de mudar essa realidade e zerar fila de tratamento, dois médicos da Santa Casa de Vitória - que lidam diretamente com pacientes com câncer - decidiram criar o projeto Juntos Pela Mama. 

A mastologista Danielle Chambô, chefe do setor de Mastologia do Hospital Santa Casa, explicou que devido à demora para o diagnóstico, quando a mulher chega até o especialista, a paciente já está com a suspeita da doença há pelo menos nove meses.

Ela conta que apesar de, por lei, as pacientes terem vários direitos - desde o acesso à mamografia até a reconstrução de mama, na prática, o governo federal não oferece recursos para que esses direitos sejam garantidos.

"Com essa demora, a gente perde o 'time'. Depois de passar por nós, especialistas, ainda há a espera de pelo menos cinco meses para a cirurgia. E o câncer não fica parado esperando, ele continua crescendo, se multiplicando, além de ser angustiante para a paciente. Há burocracia para conseguir marcar a mamografia, não há médico suficiente e não há um centro cirúrgico dedicado aos casos de câncer de mama. Na Santa Casa, por exemplo, há um centro cirúrgico para ser dividido com outras especialidades. Ou seja, não há como operar todos os dias", conta.

Dentro desse contexto, que é uma realidade também em outros hospitais do país, a mastologista lembra do caso de uma paciente que chegou até ela depois de nove meses de fila após o diagnóstico. Em meio a pandemia do novo coronavírus, que tornou a demora ainda maior, a operação foi autorizada quando o tumor estava tão grande que já não havia condições de operar.

Segundo a médica, o caso não é isolado.  Para tentar mudar essa realidade, ela e o  médico Vitor Fiorin fundaram o Juntos Pela Mama.

"Queremos construir um centro cirúrgico que seja dedicado exclusivamente ao câncer de mama e, assim, zerar a fila do SUS. Também queremos garantir a reconstrução das mamas, que apesar de parecer um detalhe estético, é muito importante. Faz toda a diferença enfrentar um momento já tão difícil com autoestima e alto astral. Mas como eu conseguiria fazer isso se eu tenho uma fila enorme de mulheres para iniciar o tratamento? Também queremos comprar toucas térmicas que, usadas bem geladas durante o tratamento com quimioterapia, faz com que os vasos sanguíneos que passam pelo couro cabeludo fiquem contraídos, dificultando a passagem da medicação para o cabelo, que não cai", explica.

Danielle Chambô, chefe do setor de Mastologia do Hospital Santa Casa
Danielle Chambô, chefe do setor de Mastologia do Hospital Santa Casa, é uma das criadoras do projeto Juntos Pela Mama. Crédito: Divulgação

Danielle Chambô

Mastologista, Chefe do setor de Mastologia do Hospital Santa Casa

"Conseguir tratamento no tempo certo, com o tumor ainda pequeno, fazer quimioterapia sem perder os cabelos, a reconstrução de mama... Tudo é muito gratificante! Para isso, cada vez mais profissionais estão aderindo ao nosso projeto. Atualmente, contamos com oito pessoas de profissões diversas, mostrando o papel da sociedade em fazer mudanças se cada um fizer sua parte"

A médica explicou que o projeto Juntos Pela Mama tem várias metas, como cortar a burocracia desde início, oferecer uma vez por semana um ambulatório onde o paciente possa levar os exames para serem analisados sem ser preciso passar por consulta antes, além de um tratamento mais humanizado.

"Nossa intenção é que o projeto torne-se cada vez maior, atendendo mais pacientes, e que o hospital vire exemplo de que é possível tornar o atendimento mais rápido sem burocracia. Para isso dar certo, a gente precisa muito da ajuda da sociedade. Vale lembrar que a partir dos 40 anos todas devem fazer a mamografia e até antes se tiver casos na família. Além disso, todo mundo tem que se tocar, fazer o autoexame da mama", orienta.

TEMPO FAZ TODA A DIFERENÇA

Quando a jornalista a Fabiana Rauta Pizzani, de 50 anos, percebeu um nódulo no seio enquanto fazia o autoexame no banho, em 2019, sabia que tinha algo errado e procurou um especialista. Diferente de tantas mulheres que precisam de atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), ela conseguiu tratamento e cirurgia em cerca de dois meses.

A história dela mostra como o tempo de diagnóstico, tratamento e cirurgia pode ser fundamental para vencer o câncer de mama. Fabiana conta que após perceber o nódulo, passou por uma  ginecologista, recebendo encaminhamento para mamografia e ultrassonografia da mama. O diagnóstico, que demoraria 15 dias, ficou pronto em meia hora. Era a primeira semana de agosto de 2019 e a cirurgia da mastectomia radical foi realizada no dia 2 de setembro.

"Eu insisti que tinha um caroço na mama esquerda, me apalpei na maca do ultrassom e mostrei ao médico, com a mão. Ele chamou outro médico e o diagnóstico veio 30 minutos depois. Essa rapidez para os exames e cirurgia foi fundamental. Tanto que na hora de operar viram que um nódulo já tinha virado dois, em apenas um mês. Como estava no início, nem precisei fazer quimioterapia intravenosa, fiz o tratamento com medicação oral", lembra. 

Quem viveu a mesma desconfiança após sentir um nódulo, em 2014, foi Sheila Silva Rodrigues, de 57 anos. Ela conta que na época em que descobriu, o nódulo foi diagnosticado apenas como uma gordura.

Com medo, nos anos seguintes ela não teve coragem de fazer a mamografia e procurou um especialista apenas em 2017, quando o nódulo começou a crescer muito. Depois, ainda precisou esperar cerca de quatro meses para a cirurgia - que só aconteceu com a doença já muito avançada.

"Eu lembro que, na ocasião, a cirurgia só poderia ser marcada se estivessem seis médicos juntos. Eu já havia demorado a pedir ajuda, por medo, e isso atrasou ainda mais. Com o apoio da médica Danielle Chambô, que naquela época já fazia um tratamento mais humanizado, eu consegui encarar a doença e o tratamento de frente. Tanto que hoje ela me pede ajuda para um trabalho com pacientes que acabam de receber o diagnóstico. Muitas ficam tão apavoradas que não retornam mais. Eu sei o pavor que elas sentem, também tive esse medo da morte e mostro que é possível vencer. É um momento difícil para mulher e qualquer abraço ou projeto para tornar isso menos doloroso é muito bem-vindo. É preciso ter humanidade", diz. 

A publicitária Sheila Rodrigues demorou para conseguir tratamento. Hoje, usa a própria história para ajudar outras mulheres
A publicitária Sheila Rodrigues demorou para conseguir tratamento. Hoje, usa a própria história para ajudar outras mulheres. Crédito: Acervo pessoal

"Infelizmente, ainda há a fila de em média cinco meses de espera para a cirurgia. Isso é algo que ainda não foi possível derrubar, mas já conseguimos muita coisa. Nossa intenção é que o projeto Juntos Pela Mama torne-se cada vez maior, atendendo mais pacientes, e que o hospital vire exemplo de que é possível tornar o atendimento mais rápido sem burocracia. Para isso dar certo, a gente precisa muito da ajuda da sociedade. Pensamo que o câncer de mama é algo distante da nossa realidade, mas há pacientes de 12 anos, homens, mulheres que só descobriram ao saber da gravidez. Vale lembrar que a partir dos 40 anos todas devem fazer a mamografia e até antes - se tiver casos na família. Além disso, todo mundo tem que se tocar, fazer o autoexame da mama", orienta. 

COMO AJUDAR?

Há algumas formas de ajudar o projeto Juntos Pela Mama. Uma delas é doando qualquer quantia no PicPay @JuntosPelaMama. Outra é adquirindo canecas, camisetas e máscara oficiais da campanha, disponível na loja Origens e no aplicativo da Shipp. Todo o valor captado será revertido ao projeto e a meta financeira estipulada para alcançar todos os objetivos é de R$ 650 mil. Todas as informações, inclusive prestação de contas, estão disponíveis no site www.juntospelamama.com.br e nas redes sociais do perfil @juntospelamama.

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