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Voltou a fumar? Está bebendo mais? Como controlar os vícios na quarentena

Aumento no consumo de álcool e outras substâncias durante isolamento preocupa especialistas

Publicado em 24/04/2020 às 08h00
Atualizado em 24/04/2020 às 08h00
Homem bebendo cerveja em casa: aumento no consumo de bebida alcoólica na quarentena preocupa especialistas
Homem bebendo cerveja em casa: aumento no consumo de bebida alcoólica na quarentena preocupa especialistas. Crédito: Freepik

Nas redes sociais, circulam dezenas de memes sobre a quarentena. Mesmo em situações difíceis como esta, há espaço para piadas, como as de gente fazendo humor com o fato de estar exagerando na bebida alcoólica neste período.

Mas um assunto sério vem preocupando especialistas em saúde mental. O isolamento pode piorar vícios antigos ou ser porta de entrada para novas dependências.

A Associação Brasileira de Estudos de Álcool e Outras Drogas (Abead) e o Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa) fizeram um alerta sobre o aumento no consumo de bebidas alcoólicas durante o confinamento. A Organização Mundial de Saúde (OMS) também já recomendou que os governos limitem a venda desses produtos, destacando que o uso excessivo pode prejudicar a saúde e elevar o risco de violência doméstica, por exemplo.

Mas como controlar os vícios na quarentena?

Apesar do fechamento dos bares e do cancelamento das festas, muitas pessoas continuam consumindo bebidas alcoólicas, cigarro e outras substâncias em casa.

De acordo com a médica psiquiatra Letícia Akel Mameri Trés, o isolamento social por causa da pandemia de coronavírus pode estimular esse consumo. “Nesse momento que estamos vivendo, as pessoas estão justamente angustiadas e ávidas por sensação de prazer. Muitos estão com problemas financeiros, se sentindo tolhidos em sua liberdade, com medo. Nesse caos, a desesperança domina. As pessoas utilizam as drogas lícitas e ilícitas para tentar aliviar angústias e aumentar a sensação de prazer, entre outras razões”, diz.

A psicóloga Keli Lopes Santos também concorda que o confinamento pode deixar as pessoas mais suscetíveis ao uso excessivo de bebidas alcoólicas, cigarro e outras drogas. A questão, observa, é que elas podem manter o hábito depois da pandemia. E isso, a longo prazo, pode se transformar numa dependência química.

“Todos estamos vivendo uma situação de estresse, pressão e luto, em diferentes graus. Nesse contexto, o uso do álcool pode se elevar. Claro que as baladas, os barzinhos, tudo isso propicia o uso em excesso de bebidas alcoólicas e outras drogas. Mas vários estudos já comprovaram que estar em confinamento também é um fator de risco. O que determina o abuso é o contexto social, de vida da pessoa, mais do que fatores biológicos.Então, é preciso cuidar disso”, destaca ela, que é especialista em psicologia da saúde e psicologia social.

Álcool não é remédio

É um erro, dizem as especialistas, recorrer ao álcool como se fosse um remédio.

“O álcool inicialmente, traz uma sensação de euforia, deixa a pessoa mais relaxada. Mas é um efeito inicial. Depois de uma quantidade de uso, ele deprime. E ele atrapalha o sono, podendo agravar problemas como a insônia, que já é algo bem comum nesta época de pandemia. Por isso, as pessoas devem saber que esse comportamento não pode ser encarado como saída possível, como uma fuga, uma forma de aplacar um sofrimento, trazer alívio. Porque são muitas as complicações posteriores. Inicialmente parece que está resolvendo o problema, mas pode estar criando outro”, afirma a psicóloga.

A quarentena pode ser especialmente desafiadora para aqueles que estavam se tratando de alguma dependência química, segundo Keli. “Para pessoas em tratamento, pode haver recaídas. Elas vão precisar de um suporte maior. Uma dica é não se isolar e buscar ajuda. Há psicólogos e outros especialistas autorizados a atender remotamente. No Sistema Único e Saúde, há serviços que continuam funcionando, como os Caps, que também atendem pessoas com problemas com álcool. Sem falar no Centro de Valorização da Vida, o CVV, com voluntários prontos para acolher, ouvir quem precisa”, cita ela.

Os Alcoólicos Anônimos (AA) também se adaptaram para lidar com o problema e estão fazendo reuniões virtuais para acolher os integrantes e os novos membros. O link para participar está disponível no site da entidade.

Da mesma forma, os dependentes químicos podem enfrentar crises de abstinência durante o confinamento. “É importante fazer esse alerta porque, ao pararem de vez de usar a substância, eles podem ter sintomas de abstinência que podem até levar à morte”, reforça a psicóloga.

Letícia lembra que, além do álcool e outras substâncias, o jogo, a comida e o sexo também podem causar dependência. “Eles ativam no cérebro receptores de dopamina, que são responsáveis pela sensação de prazer”.

Para esse período, a orientação das especialistas é primeiro se atentar para a frequência do consumo.

Sinais

“Não existe uma regra. Cada pessoa vai manifestar isso de uma forma. Mas beber todos os dias pode ser um indicativo de que há um descontrole já. Agora, mesmo que não beba todos os dias, a pessoa deve ficar atenta a alguns sinais de que há um abuso no consumo. Ela pode não ser uma dependente química, mas já ter problemas com uso do álcool, por exemplo”, diz Keli.

Entre os sinais, a psicóloga cita alguns: “O desejo incontrolável de usar é um sinal de alerta. Se a pessoa parou de fazer uma atividade por causa do álcool ou outra droga, se deixou de trabalhar para beber, se faz uso todos os dias ou se faz uso muito grande em um curto espaço de tempo. Tudo isso pode indicar uso abusivo”.

O ideal, diz, é evitar ter bebidas e cigarros em casa, por exemplo. “Não é proibido beber. Mas é preciso ficar de olho na frequência desse consumo, na quantidade”.

Outro recurso é buscar canalizar o prazer para outras fontes. “A pessoa deve criar uma nova rotina para si. Encontrar formas de interação social, não deixar de estar em contato com pessoas de que gosta. Precisa entender que isso é passageiro. Apesar de não termos vivido algo parecido, saber que isso já aconteceu e vai passar. Focar no presente, nas atividades que tem que resolver. Se não estiver trabalhando, criar outra atividade para fazer em casa”, indica Keli Lopes.

Mesma orientação da psiquiatra Letícia: “Temos inúmeras formas saudáveis de sentir prazer, como praticar atividade física, assistir a filmes, ler, praticar outro hobbie, entre outros. É de extrema importância a busca interna por prazer, justamente para não se enveredar pela busca com coisas danosas à saúde”.

Mais do que nunca, frisa a médica, precisamos estar com a saúde em dia. “Tenho a seguinte premissa com meus pacientes: tento não proibir nada que seja lícito e sim buscar o equilíbrio. Beber com moderação, comer com moderação. Mas fumar não tolero nem com moderação, pois o dano é absurdo mesmo com ‘pequenas doses’, ainda mais em época de Covid-19. Nas pessoas que possuem dependência não tem como liberar a utilização, pois sabemos que o início leva ao uso abusivo”.

A imunidade pode ser afetada, diz médica

A médica ressalta ainda que o consumo de álcool, cigarro e outras drogas prejudica o sistema imunológico, o que pode vir a ser um fator facilitador para o contágio por coronavírus e um complicador da doença.

“O uso de álcool e outras drogas, em especial as fumadas e inaladas, assim como a obesidade, alteram o sistema imunológico, desencadeando processos inflamatórios, em especial nas paredes dos vasos sanguíneos. E isso dificulta a resposta à Covid, já que sabemos que o vírus atua justamente no sistema imune”, afirma Letícia.

Onde buscar ajuda

CAPS ad Vila Velha - 3239-9846 / 99963-0524

CAPS ad Vitória - (27) 3132-5104

CAPS Ad Serra: (27) 3328-4137

Centro de Valorização da Vida (CVV) - Ligue 188

Alcoólicos Anônimos - www.aa.org.br

Narcóticos Anônimos - www.na.org.br

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