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Quarentena: seu filho voltou a agir como um bebê? Entenda o que se passa

Ele voltou a pedir a chupeta, fazer xixi na cama, só chora e quer colo? Afinal, é normal a criança ter esses retrocessos? Veja como ajudá-lo a lidar com esse período

Publicado em 25/04/2020 às 11h28
Atualizado em 05/05/2020 às 16h49
Mãe com criança pequena: a pandemia pode mudar o comportamentos dos pequenos, que podem apresentar regressões de fases
Mãe com criança pequena: a pandemia pode mudar o comportamentos dos pequenos, que podem apresentar regressões de fases. Crédito: Yeko Photo Studio/Freepik

Se entender e encarar essa pandemia está difícil para nós, adultos, imagine como fica a cabecinha de uma criança diante dessa loucura toda. Tem mãe e pai em casa, mas eles estão estressados, angustiados, sobrecarregados com questões do trabalho. Tem as privações. Muitas. Não pode ir à escola, nem botar os pés na rua. Tem a saudade dos amiguinhos, dos tios, primos e avós. O tempo todo tem alguém mandando lavar as mãos, passar álcool.

Não dá pra exigir que elas tenham um comportamento exemplar na quarentena, certo? Mas muitos pais estão preocupados porque seus filhos estão agindo novamente como bebês. Voltaram a pedir a chupeta ou a fazer xixi na cama, por exemplo.

Fomos atrás de especialistas para entender por que isso acontece. Afinal, é normal a criança ter esses retrocessos? Dar uns passos atrás e voltar a viver fases já antes superadas? Como a família pode ajudar os pequenos nessas questões e evitar mais sofrimento para eles?

A psicanalista Renata Tavares Imperial diz que tem escutado muitos pais aflitos com a mudança no temperamento dos filhos. “É possível citar algumas manifestações mais comuns que comparecem na fala dos pais, como, por exemplo, irritabilidade, agitação, aumento do apetite, sono interrompido, dificuldade em se concentrar nas atividades escolares”

A psicóloga Danielle Alvim Sampaio diz que realmente as crianças podem revelar de diversas maneiras o que estão sentindo sobre esse isolamento. “Elas podem demonstrar tristeza; apatia; perda de interesse; agressividade; choro excessivo sem motivo; perda de apetite ou fome em excesso; resistência em fazer atividades rotineiras, como tomar banho, comer, entre outras. Sem falar nas brigas frequentes com irmãos”, cita.

Segundo Renata, esses comportamentos também variam de acordo com a idade da criança. “As crianças mais velhas, com idades entre sete e dez anos, conseguem expressar que estão tendo pesadelos, medo de dormir sozinhas, medo que alguém da família adoeça pelo coronavírus... Além de ser mais fácil a observação, por parte da família, de uma queda do rendimento escolar. As crianças menores, entre três e cinco anos, costumam manifestar no corpo o desconforto que estão vivendo nesse momento de isolamento social. Apresentam com frequência, aumento dos episódios de enurese noturna e diurna, alterações no apetite, ficam mais irritadas e mais birrentas, até mesmo agressivas com os brinquedos e as pessoas à sua volta”, explica.

Para ela, todas essas possíveis alterações no comportamento, não indicam, necessariamente, que há algo de errado com a criança, e sim que ela está afetada pelo momento social que estamos vivendo. “As crianças, como qualquer pessoa, não sairão ilesas dessa pandemia do coronavírus”.

Danielle concorda: “Estamos vivendo um momento muito complicado para todos: crianças , adultos e idosos. Um momento novo. Nunca ninguém imaginou passar por isso! E as crianças sentem como nós, adultos. Não conseguem, porém, expressar o que estão sentindo com palavras, falar sobre isso”.

Dessa forma, afirma a psicóloga, crianças pequenas podem apresentar recaídas em seus comportamentos. “Entendemos como regressão a forma como a criança chama atenção para si mesma. Ele quer dizer com a regressão que precisa de atenção, cuidado, segurança. Ela está apenas externalizando o que está sentindo. No momento que estamos vivendo muitas crianças estão externalizando tristeza, insegurança, ansiedade e medo. E elas não conseguem lidar com seus sentimentos”.

Mecanismo de defesa

É preciso compreender que o que chamamos de regressão, dizem as especialistas, pode ser um mecanismo de defesa da criança.

“Estamos vivendo um momento muito peculiar, que porta um traço de novidade, de surpresa, de muita incerteza, que afeta a todos. Onde está o vírus? Quem já foi contaminado? Não tenho sintomas, mas mesmo assim posso estar contaminado? Por que não posso ver e abraçar meus avós? Em situações como essa, cada pessoa vai lançar mão da sua forma de lidar com o novo, vai acessar os recursos que possui para se acalmar e para enfrentar as adversidades. A criança, de acordo com sua realidade e respeitando as limitações da idade, também vai acessar os recursos que ela já construiu, principalmente aqueles que a acalmam, como por exemplo, a chupeta, que é o exemplar mais clássico. A fralda também pode cumprir essa função, pois não é simples para a criança perder seus excrementos, seu xixi e cocô”, observa Renata.

Assim, destaca ela, uma criança que pode ter tido a vivência de dormir no quarto dos pais pode ser que recorra a isso para se sentir mais segura e conseguir adormecer. “Essas mudanças de comportamento, que a princípio, podem parecer uma ‘regressão’ ou podem transparecer que a criança está ‘desaprendendo’ algo que já havia aprendido ou superado podem, então, ter esse caráter de busca por algo já conhecido, algo que a criança já sabe que a acalma, que a ajuda a lidar com esse clima de incerteza. É muito comum que as crianças gostem de assistir sempre o mesmo filme, o mesmo desenho animado, pois representam o conhecido, aquilo que elas dominam, que diminuem as chances delas serem tomadas por algo do inesperado”.

Renata Tavares Imperial

Psicanalista

"Essas mudanças de comportamento, que a princípio, podem parecer uma ‘regressão’ ou podem transparecer que a criança está ‘desaprendendo’ algo que já havia aprendido ou superado podem, então, ter esse caráter de busca por algo já conhecido, algo que a criança já sabe que a acalma, que a ajuda a lidar com esse clima de incerteza. "

As crianças percebem clima ao redor

Crianças também são ótimas “detetives”. Elas percebem tudo o que se passa ao redor, toda essa carga pesada da pandemia que muitos pais tentam disfarçar, mas que acabam deixando transparecer em seus próprios atos dentro de casa.

“Os pais são o espelho da criança. Pais que estão emocionalmente descontrolados acabam passando o descontrole para as crianças. Se estão ansiosos, as crianças ficarão mais ansiosas também. O ambiente também influencia muito nas atitudes das crianças. Se estão vivendo em um ambiente harmonioso, equilibrado, ficarão mais equilibradas. Por isso, é importante os pais observarem o que eles estão sentindo, como estão agindo com as crianças. Mas eles não devem se culpar, se sentir fracassados em algum momento. O que vale é tentar se equilibrar, pensar positivo e entender o está acontecendo. Sobretudo quais são os sentimentos que aquela criança que regrediu está sentindo”, orienta Danielle.

Os pais, reforça Renata, não são super-heróis.

“Espero que não se sintam e não se vejam dessa forma. Os pais possuem suas próprias questões subjetivas, seus interesses, demandas como filhos, como profissionais, como cônjuges etc. Portanto, neste momento, suas próprias fragilidades tendem a comparecer. Mas, como adultos que são, espera-se que encontrem maneiras de contornar suas angústias e ansiedades para poder apoiar os seus filhos. Já escutei muitos relatos de pais dizendo que o fato de terem se tornado pais os ajudaram a superar dificuldades que possuíam. A responsabilidade, os laços amorosos e a convivência familiar também podem propiciar uma rede de afeto e de suporte tanto para os filhos, como para os pais”.

É preciso, segundo Danielle, acolher a criança, entendendo que esses comportamentos não são intencionais e sim sintomas. E buscar o diálogo, por mais complicado que seja o assunto a tratar, como uma pandemia.

“Eles devem usar uma comunicação adequada, respeitosa, equilibrada com a criança. Expressar seus sentimentos com o contato físico, abraçar, beijar, dar colo, carinho.

A criança precisa ser lembrada que é querida e amada. É bom evitar frases negativas, evitar comparações com irmãos mais velhos ou outras crianças. Tem que procurar entender o que ela está sentindo e falar sobre o que papai e a mamãe também estão sentindo”, frisa a psicóloga.

Convém observar que o desenvolvimento infantil não é linear. Ele tem mesmo altos e baixos. Por isso, a família deve se atentar se a mudança de comportamento, se a regressão está mesmo dentro desse contexto de coronavírus ou é algo normal da fase.

“Se a criança apresentou regressão no comportamento por conta da chegada de um irmãozinho, por exemplo, isso pode ocorrer e passar. Mas se a intensidade dos comportamentos e frequência forem grandes, é necessário que esta criança entre em observação”, afirma Danielle.

Renata destaca que antes de qualquer conclusão, se a criança está apresentando um retorno a uma etapa no desenvolvimento já superado, é fundamental ter em conta que estamos vivendo um momento crítico em função da pandemia.

“Penso que o mais recomendado é que os pais, em um primeiro momento, observem seus filhos, escutem o que eles têm a dizer, não somente através das palavras, mas também com seus gestos, suas atitudes, suas expressões corporais, enfim, qualquer manifestação apresentada pela criança tem valor e tem uma importância enorme para se avaliar como o filho pode estar vivenciando o momento atual. Em outras palavras, a observação e a escuta têm que vir em primeiro lugar, antes de qualquer medida”, comenta a psicanalista.

Vale juntar com o conhecimento de como o filho era antes da situação da pandemia. “É muito importante os pais tentarem abordar a situação que está preocupante em momentos que estão mais tranquilos e em condições de falar de forma respeitosa e de ouvir o que a criança tem para transmitir. Nem sempre é possível, mas deve ser tentado. Essa abordagem pode ser feita em qualquer idade, respeitando sempre as condições da criança. Desde bebê as crianças estão atentas e interessadas naquilo que os pais têm a dizer”, ressalta Renata Imperial.

Danielle Alvim

Psicóloga

"Se a criança apresentou regressão no comportamento por conta da chegada de um irmãozinho, por exemplo, isso pode ocorrer e passar. Mas se a intensidade dos comportamentos e frequência forem grandes, é necessário que esta criança entre em observação"

Ajuda de fora

Se for o caso, pode ser importante também pedir ajuda extra.

“Se os pais observarem que os filhos apresentam comportamentos que estão muito fora da normalidade , é hora de procurar ajuda profissional. Se a alteração de comportamento está atrapalhando a vida do seu filho, prejudicando sua saúde, seus relacionamento com as outras pessoas, ele pode estar sofrendo”, afirma a psicóloga. "No momentos muitos profissionais estão fazendo atendimento on-line ", complementa ela.

Até porque, afirma, os sintomas apresentados agora, se não forem bem trabalhados, podem piorar com a volta da rotina.

Nesses casos, diz Renata, a família pode, em conjunto com os profissionais de referência (pediatra, psicólogo, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, etc), avaliar se ocorreu um agravamento do quadro e quais as medidas mais adequadas para este momento, com as limitações que o isolamento social impõe.

“Sempre que possível, os pais devem recorrer também ao pediatra que já acompanhava a criança anteriormente, para auxiliar na avaliação se se trata de um comportamento que pode ser passageiro, se é um comportamento comum para a faixa etária, ou se pode ser um quadro mais preocupante mesmo”, destaca a psicanalista.

Como ajudar seu filho

  1. 01

    Compreenda, acolha

    Ao ver que o filho está agindo diferente, regredindo em alguns comportamentos, eles devem acolher a criança, entendendo que esses comportamentos não são intencionais e sim sintomas. E buscar o diálogo, por mais complicado que seja o assunto a tratar, como uma pandemia.

  2. 02

    Fique atento aos sinais

    Neste período, a criança pode revelar seus sentimentos de diversas maneiras. Pode ter um choro mais frequente,  irritabilidade, agitação, sono interrompido, dificuldade em se concentrar nas atividades escolares. Pode demonstrar tristeza; perda de interesse; agressividade;  perda de apetite ou fome em excesso; resistência em fazer atividades rotineiras, como tomar banho, comer, entre outras. Sem falar nas brigas frequentes com irmãos

  3. 03

    Regredir é normal

    A criança, por conta do estresse, da insegurança, pode regredir em certos comportamentos, voltar a agir como um bebê. Pode pedir chupeta, voltar a fazer xixi na cama ou precisar de fraldas de novo. Segundo especialistas, é um mecanismo de defesa dela para se acalmar, restabelecer a segurança

  4. 04

    Observe

    Observem seus filhos, escutem o que eles têm a dizer, não somente através das palavras, mas também com seus gestos, suas atitudes, suas expressões corporais, enfim, qualquer manifestação apresentada pela criança tem valor e tem uma importância enorme para se avaliar como ela pode estar vivenciando o momento atual.

  5. 05

    Quando procurar ajuda

    Se os pais observarem que os filhos apresentam comportamentos que estão muito fora da normalidade , é hora de procurar ajuda profissional. Se a alteração de comportamento está atrapalhando a vida do seu filho, prejudicando sua saúde, seus relacionamento com as outras pessoas, ele pode estar sofrendo

  6. 06

    Mantenha-se equilibrado

    Crianças são ótimas "detetives" e sabem detectar o clima na casa, na família. Se os pais estão mais agitados, ansiosos, estressados, inseguros, elas vão perceber e vão reagir diante disso. Só que elas não sabem se expressar. Cuide da sua saúde mental, mantenha a rotina de casa em ordem, converse bastante e passe tranquilidade a seu filho. Mostre que vai ficar tudo bem, que tudo isso vai passar

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