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Pais tatuam o amor e a conexão que têm com seus filhos

Seja para fazer uma homenagem ou simplesmente demonstrar a ligação intensa que possuem, muitos pais fazem tatuagens para seus filhos

Publicado em 31/07/2020 às 18h49
Atualizado em 31/07/2020 às 18h53

Uma onda, um rosto, um olhar, um anjo... A escolha de uma imagem pra ser tatuada na pele para sempre pode ser a forma escolhida por um pai de demonstrar amor por seu filho. Mas não só isso, essas marcas significam, muitas vezes, uma conexão, um reconhecimento e até uma homenagem. E se tornam o melhor de todos os presentes, e para ambos, porque não é raro um mesmo desenho ser escolhido para virar tatuagem no corpo de pai e filho. Ou filha, como aconteceu com o executivo comercial Atillio Viaggi Junior, de 49 anos.

Attilio Junior e a filha Duda, mostrando a onda que têm no braço em homenagem ao surf e a conexão entre eles
Attilio Junior e a filha Duda, mostrando a onda que têm no braço em homenagem ao surf e a conexão entre eles. Crédito: Arquivo Pessoal

A conexão

“Quando tinha 15 anos, Maria Eduarda, a Duda, pediu pra surfar e, desde então, virou minha companheira de surf. Ela fez tatuagem em forma de onda no pulso pra mostrar o que o surf representa em nossa vida. Depois de um tempo fiz o mesmo desenho no mesmo local. É a nossa conexão”, conta ele. Além de Duda, que hoje está com 19 anos, Attilio tem outra filha. Jemilli, que tem 29. E, claro, ela não vai ficar sem uma tatuagem pra chamar de sua.

“A Jemilli está terminando o doutorado em Biologia Marinha e é mergulhadora. Como tem uma forte conexão com o mar, agendei pra essa semana uma tatuagem de mergulho em homenagem a ela também”, antecipa ele. E completa: “Minha atual esposa, que não é mãe das minhas filhas, foi o meu maior elo de união elas. Hoje tenho uma conexão de amizade, lealdade e cumplicidade com minhas filhas que foi construída e moldada com muito aprendizado. E pra nossa felicidade minha esposa ajudou muito nisso”.

A tatuadora Cinthia Gonçaves, do Studio Kessy Borges, foi a responsável por tatuar a onda que une pai e filho. “Faço com muita frequência tatuagens de filhos homenageando os pais e vice-versa. Tem pai que tatua o pezinho da criança, alguma letra ou data. É um amor eterno, e acaba que a gente participa disso. É o nosso traço que fica no corpo da pessoa para o resto da vida. Pra mim, é muito gratificante, porque é uma arte minha, eterna”.

Evandro Moryama e suas tatuagens em homenagem à Ana Luiza, sua filha que faleceu em 2019, depois de ter sido atropelada por uma moto
Evandro Moryama e suas tatuagens em homenagem à Ana Luiza, sua filha que faleceu em 2019, depois de ter sido atropelada por uma moto. Crédito: Arquivo Pessoal

A homenagem

Os olhos sempre foram sua marca registrada. Castanho e puxados. A cor puxou da mãe, de origem italiana, e o formato do pai, de família japonesa. Não à toa um deles foi escolhido para ser tatuado em uma das mãos do comerciante Evandro Moryama, de 43 anos.

A íris, os cílios e a sobrancelha tomam conta de quase toda a parte de cima das mãos de Evandro. Subindo pelo braço, o desenho de um anjo, também de traços orientais, e, logo acima, uma imensa medalha de São Bento. Pra finalizar, na parte interna do braço uma foto de meio corpo de uma menina linda, de 13 anos.

Toda produzida, vestindo um kimono e segurando um leque nas mãos, Ana Luiza Moryama posa com altivez para a foto e parece satisfeita com o resultado. “Ela era linda! Linda e cheia de personalidade”, conta Evandro.

O verbo, usado no passado, explica o porquê das tatuagens. Elas são uma homenagem à sua filha que faleceu em janeiro de 2019, após ser atropelada por uma moto em Guarapari.

“Tinha só 17 anos! Eu e minha mulher, Simone, encontramos na fé em Deus a forma de enfrentar a dor da saudade”, diz Evandro. Não à toa, a medalha de São Bento foi um dos desenhos escolhidos.

“Hoje sou devoto de São Bento, mas estávamos afastados da igreja. Ana Luiza que nos levou novamente para o caminho de Deus. Ela também fez questão de fazer primeira comunhão e crisma. Tudo foi vontade dela. É como se ela soubesse que iríamos precisar dessa força. E é essa fé que tem nos ajudado a enfrentar a saudade”.

Além de levar os pais e o irmão mais novo, Enzo, para a igreja, Ana também acabou influenciando Evandro a fazer crisma. “Ela me fez entender que era preciso”, disse ele.

O anjo com traços orientais foi a imagem escolhida por eles para fazer um tapete no calçadão da Praia da Costa, no primeiro Corpus Christi sem Ana Luiza. “Minha mulher achou essa imagem, que é muito parecida com Ana. Ela é nosso anjo”.

O realismo

A escolha do tatuador Carlos Chagas Almeida da Silva, conhecido como Cigano, para ser o responsável por todas essas homenagens se deve à especialidade dele. “Queria algo que se aproximasse o máximo possível do real e ele já trabalha há muito tempo com realismo. Saiu exatamente como eu queria. Cigano é fera!”, elogia Evandro.

A recíproca é verdadeira: “Japa é um querido!”, retribui o tatuador, que costuma receber vários pais querendo fazer homenagens para seus filhos.

“Trabalho com tatuagem há 13 anos e desde o começo faço realismo. Lógico que não era a mesma qualidade que é hoje, mas sempre gostei e me dediquei ao realismo. Desenho desde criança, sou autodidata”.

Cigano tem 35 anos, é casado e pai de três filhos: Carlos Júnior, de 16 anos, Carlos Davi, de 8, e Carlos Aquiles, de 8 meses. E já tem os nomes dos dois primeiro tatuados na perna. “Tenho escrito Júnior e Davi. Agora só falta o Aquiles”, avisa.

Fabricio Caliman e o tatuador Carlos Cigano, e a foto de Guilherme tatuada pela técnica do realismo
Fabricio Caliman, o tatuador Carlos Cigano e a foto de Guilherme tatuada pela técnica do realismo. Crédito: Olimpia Piumbini

O reconhecimento

Nomes e frases são mais fáceis, mas uma tatuagem realista de um rosto, por exemplo, chega a demorar 3 horas para ser feita. O motorista de aplicativo Fabricio Caliman, de 49 anos, sabe bem disso. Ele procurou Cigano para tatuar o rosto do filho no seu braço e pretende fazer uma surpresa para ele agora, no Dia dos Pais. “Tinha o nome de minha filha, Vitória, tatuado no pescoço. E Guilherme sempre reclamou. Claro que eu queria fazer uma pra ele também. Mas queria o rosto dele, que é mais caro”, explica.

Fabricio conta que desde a adolescência sonhou em constituir uma família. E que, infelizmente, sua mulher sofreu um aborto na primeira gravidez. “Era uma menina. Fiquei muito triste, mas felizmente, logo em seguida, ela engravidou novamente e veio Guilherme”.

Fabricio foi pai novo, com 23 anos. Mas ao contrário do que muitos jovens pensavam na época, ele gostou muito da experiência. “Eu acabei curtindo muitos momentos legais com ele, saindo pra shows e festas... Sempre tivemos uma cumplicidade um com o outro. Ele é um menino muito inteligente, carismático, que todo mundo fala bem, admira. Essa tatuagem é a forma que encontrei de mostrar que conheço e valorizo todas essas qualidades dele. É um reconhecimento.”

Fabricio ficou encantado com o trabalho de Cigano. “Valeu a pena esperar. Ficou perfeito! Guilherme merece essa homenagem. E a gente que é pai tem esse amor incondicional. Espero que ele goste!”, finalizou ele, empolgado.

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