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Gordofobia: empoderamento é importante, mas acesso é essencial

A discriminação enfrentada por pessoas gordas também inclui desafios relacionados à acessibilidade que deveria ser garantida a elas por direito

Publicado em 17/08/2020 às 15h53
Atualizado em 17/08/2020 às 15h53
Isabelle do Prado lamenta a negligência do Estado em relação à falta de acesso. Crédito: Reprodução Instagram @bellepradost
Isabelle do Prado lamenta a negligência do Estado em relação à falta de acesso. Crédito: Reprodução Instagram @bellepradost

Usar o transporte público, colocar um cinto de segurança, ir ao cinema ou sentar na cadeira de um bar. São atividades corriqueiras e simples - ou pelo menos deveriam ser. Essas tarefas são realizadas de forma tão natural que nós nem percebemos que, para algumas pessoas, viver não é tão simples assim. Além das questões ligadas à pressão estética, a gordofobia alcança níveis estruturais que limitam a vida, o desenvolvimento e o bem-estar da pessoa gorda.

O discurso de amor próprio é importante, porém não é o suficiente para romper essas barreiras. "Às vezes eu deixo de ir a lugares que não conheço por medo de o assento não me comportar. Não vou mais ao cinema da minha cidade porque a poltrona não me cabe e precisei gravar os modelos de ônibus que tenham roletas maiores, pois eu já fiquei agarrada em uma e foi muito vergonhoso e constrangedor", conta a estudante Isabelle do Prado.

Para Isabelle o principal desafio relacionado ao acesso é compartilhar espaços comuns. "Quando estamos dentro de um ônibus e o assento é pequeno, por exemplo, nos sentimos mal pelo desconforto e pelo fato de que a pessoa que vai sentar ao nosso lado também vai se sentir incomodado pela falta de espaço", diz.

"Como o corpo gordo é visto como inferior, não saudável e algo que 'dá pra consertar', os espaços não se sentem no dever de se adequar e considerar que as pessoas não podem se obrigar a emagrecer apenas para poder circular e viver normalmente", desabafa Isabelle sobre a ausência da fiscalização dos ambientes compartilhados - como os cinemas, bares e restaurantes -  por parte dos órgãos públicos.

Direitos

A garantia do acesso é um direito constitucional, porém, em muitos casos, a pessoa gorda não tem o mesmo direito que as outras. Mariana Reis estuda e escreve sobre  acessibilidade, ela explica que os órgãos públicos são falhos na garantia destes direitos. "A partir do momento em que o Estado não oferece acesso a alguém que possui necessidades especiais, ele impede o desenvolvimento do cidadão, pois ele não equipara as oportunidades", diz.

"Apesar de ser uma legislação, os espaços públicos ainda não são adaptados a todas as pessoas. Acesso é vida e todos usufruem dele, não deve existir uma política pública específica para determinados grupos, o Estado precisa atender a todos", complementa Mariana.

"E a saúde?"

A discriminação ocorre também de maneira institucional. De acordo com a pesquisa Profissionais Brasileiros — Um Panorama sobre Contratação, Demissão e Carreira realizada pela empresa Catho, em 2013, 6,2% dos empregadores assumidamente não contratam pessoas obesas. Além disso, a obesidade possui Cadastro Internacional de Doenças (CID 10E66) e a problemática de ser uma patologia é que coloca todas as pessoas gordas como doentes, sem considerar particularidades e interseccionalidades, mesmo que cerca de 30% dos indivíduos obesos tenham perfil metabólico e cardiovascular dentro da normalidade, de acordo com dados do Ministério da Saúde.

Ana Caroline Inácio é graduanda em pedagogia, professora, modelo plus size e atua nas redes sociais com um discurso de amor próprio, autoestima e questões raciais. Para ela, o discurso gordofóbico se apropria da questão da saúde para exercer seu preconceito. “As pessoas não pensam na gente, tentam disfarçar o preconceito delas em forma de preocupação, mas a gente sabe bem quem quer ajudar e quem quer julgar o tamanho do seu corpo”, desabafa a professora.

“A gordofobia é uma opressão estrutural. Ela não pode se limitar à questão do amor próprio, porque nós sofremos diariamente e é para além disso. A gente precisa de um ativismo que não só incentive as pessoas a se amarem, mas que lute por acesso”, coloca a modelo.

Ativismo digital

Rayane Souza é modelo plus size, digital influencer e colunista da Revista ag, ela considera o ativismo virtual uma das formas de conscientização da população em relação ao problema. “Nas salas de aula, nos meios de comunicação, nem sempre esses assuntos são abordados de maneira adequada, então a liberdade de expressão que a rede social hoje oferece, proporciona essa possibilidade de atingirmos o máximo de pessoas possíveis".

Rayane Souza

Modelo plus size

"Acessibilidade no transporte público, na moda, na mídia, na saúde. Pessoas gordas, também são gente, e gente carece de acesso em todos os âmbitos"

“Auto Aceitação é o primeiro passo. O segundo passo é o respeito ao próximo. O terceiro é acessibilidade. Acessibilidade no transporte público, na moda, na mídia, na saúde. Pessoas gordas, também são gente, e gente carece de acesso em todos os âmbitos”, coloca a modelo.

Rayane usa as redes sociais para conscientizar e reinvindicar direitos. Crédito: Reprodução Instagram (@rayanesouzaplus)
Rayane usa as redes sociais para conscientizar e reinvindicar direitos. Crédito: Reprodução Instagram (@rayanesouzaplus)

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