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Sérgio Blank escolheu Baudelaire e Rimbaud como vizinhos de estilo

"Sem embaraço e com loas a mortos exemplares, repito à exaustão: dentre os atuais, ele é o poeta-mor capixaba", diz o jornalista Adilson Vilaça sobre o escritor, morto no dia 23 de julho

Publicado em 01/08/2020 às 14h00
Atualizado em 01/08/2020 às 14h00
O escritor Sérgio Blank
O escritor Sérgio Blank. Crédito: Fernando Madeira
  • Adilson Vilaça

    É jornalista e escritor. Vice-presidente da Academia ES de Letras e da Comissão ES de Folclore

É incomum que anjos pousem entre humanos. Muito menos anjos barrocos. Menos ainda anjos barrocos portadores de uma lira de linhagem pós-moderna, adiante de seu tempo, à maneira de raros mestres que nos antecederam. Eu o conheci na Cidade Alta de Vitória, na efervescência dos anos 80, quando as instituições e os fazedores de cultura conviviam naquele privilegiado espaço da ilha. Sérgio pousou entre livros, ao iniciar a trajetória intelectual, com depurado traquejo poético.

Ele era rapazola magro, espichado, cabelos louros esvoaçados, olhos azuis, um riso quase transparente. Pouca gargalhada, muita metáfora no bolso e no coração. Apesar de jamais ter deixado sua Cariacica, ele desabrochou para a literatura no ambiente em que se acotovelavam as muitas livrarias da capital. Sérgio era livreiro, aprendiz que galgou rápido na tarefa de conhecer clientes, editoras e autores. O bom livreiro do período sabia as prateleiras e o estoque. Ele conhecia a mercadoria por dentro, feito traça, ávido leitor.

Depois, ele migrou para produtor cultural, ainda na labuta vinculada ao mercado do livro. Cuidava de organizar lançamentos de escritores, nessa e naquela livraria – mas, eis o segredo: tornou-se empresário de poemas e de uma linguagem revolucionária. Amigos, eu o enredei até a minha Macondo capixaba, a cidade de Ecoporanga. Sérgio esteve lá três vezes, íamos novamente no ano passado, porém, nas vésperas da partida, o terrível ano de 2019 castigou seu fígado encrenqueiro. Como podíamos adivinhar que 2020 seria ainda mais cruel?

Estivemos juntos. Ainda estamos. Nos lançamentos de seus: “Estilo de ser assim, tampouco”, “Um,”, “Pus”, ‘Safira”, “A tabela periódica”, “Vírgula”, “Luzes da cidadania” e... Daí, o Sérgio embirrou que não escreveria mais. Sentenciou o fim da escrita, altissonante, na Biblioteca Pública Estadual. Eu estava lá, eu reclamei. Logo mais na esquina do tempo, ele nos saudou com “Blue sutil”. Ali está, definitiva, a prova de sua magnitude. Seu derradeiro livro me fez dizer, sem lastro, o quanto sou seu admirador. Para sempre!

Sérgio Blank produz uma poesia de fazer borboleta desnudar-se de asas, de atear fogo nos oceanos, de aquietar congresso de trombetas. Sem embaraço e com loas a mortos exemplares, repito à exaustão: dentre os atuais, ele é o poeta-mor capixaba. Na fase final, que nos concedeu os acordes dissonoros de “Blue sutil”, sua prosa poética marca andamento e compasso de equilíbrio ímpar. Quem já bamboleou passos no balanço de arame farpado assim peculiar?

A vizinhança de estilo, amparada na inigualável fatura estética do texto de Sérgio Blank, pode ser garimpada no ouro temático de “O spleen de Paris”, de Charles Baudelaire, ou de “A Prosa poética”, de Arthur Rimbaud. Senão vejamos: “pela janela aberta da sala, eu contemplava a arquitetura móvel que Deus faz com os vapores” (A sopa e as nuvens, C. Baudelaire); “Acreditei-me possuído de poderes sobrenaturais. Pois bem! Devo enterrar minha imaginação e minhas lembranças!” (Adeus, A. Rimbaud). Ou, ainda na galeria da transcendência, Sérgio Blank, em “Blue sutil”: “Não sei rezar. Acredito que molhar os pés nas ondas do mar é uma oração. O silêncio desenhado no horizonte é uma prece”.

Os poemas desse seu incrível manual da sensibilidade são despidos de moldura, não têm título; se ele me pedisse para batizar o poema citado, eu lhe ofertaria “Oração”. Mas Sérgio não é de pedir nada com o idioma da voz. Não pediu sequer voto para entrar na Academia Espírito-Santense de Letras. Ousadamente, eu fiz campanha em seu nome, como se ouvisse rumoroso apelo de sua tão serena poesia. Houve farta concorrência, mas ninguém saiu derrotado. Porque a literatura venceu.

Dizer adeus ao poeta-mor capixaba, para sempre vivo, não é missão impune. Dizer adeus a um amigo tem seu preço em lágrimas e aperto no coração. Que assim seja, já que não posso restituir-lhe a vida. Muito comovido... Requiescat In Pacem, meu amigo. Guardo comigo, quase posso tocá-la, a transparência de seu riso. Sérgio não era Blank, era Blue. Sutil.

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