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Sérgio Sampaio compôs 'O Grande Xerife' para Elis Regina, mas censura vetou a música
Sérgio Sampaio compôs "O Grande Xerife" para Elis Regina, mas censura vetou a música. Crédito: Arquivo

Sérgio Sampaio e Elis, um encontro impedido pela censura

A censura dos tempos obtusos impediu que pudéssemos ter a junção de talentos tão desabridos: o cachoeirense compôs uma canção que não pôde ser lançada por uma das maiores cantoras do Brasil

Publicado em 27/06/2020 às 11h00
Atualizado em 27/06/2020 às 11h00
  • João Moraes

    É músico e escritor isolado

Li há algumas semanas no blog do Mauro Ferreira uma matéria sobre a descoberta no Arquivo Nacional de uma letra censurada do Sérgio Sampaio, feita para ser gravada por Elis Regina. O nome da música é “O Grande Xerife” e nela Sérgio se pronuncia como uma mulher falando de seu homem. A descoberta é do pesquisador musical Manoel Filho, e a letra foi censurada por ser lasciva e por ter sido ofensiva à figura da autoridade. Uma grande besteira que acabou por impedir que Elis gravasse Sampaio.

E, como corria o ano de 1973, provavelmente entraria para o fundamental disco “Elis”, no qual ela gravou quatro canções dos parceiros Aldir Blanc e João Bosco, que ela havia lançado em 1972 no também homônimo “Elis”, primeiro disco dela com César Camargo Mariano. Teria lançado Sérgio também, ao que tudo indica. Aliás, não se sabe se a música chegou a ser gravada como o documento do Arquivo Nacional sugere.

O fato é que a censura dos tempos obtusos impediu que pudéssemos ter a junção de talentos tão desabridos. Muita coisa na história da MPB seria diferente, caso as mãos pesadas da ignorância e truculência não tivessem impedido esta e tantas outras músicas. Elis teria se aproximado desse compositor ímpar, que teria lhe fornecido muitas outras canções ao longo da carreira. E ainda há um fato muito curioso: teria sido a única canção composta por Sérgio sob a ótica feminina.

LEMBRANÇAS DE MARATAÍZES

A leitura da matéria me atiçou a memória e me fez voltar ao verão de 1973, o verão do “Bloco na Rua” que havia estourado no Festival Internacional da Canção, no final de 1972.

Como era costume do Sérgio, antes e depois do “Bloco”, ele foi passar o verão em Marataízes em nossa casa. E, sim, também tinha um Corcel 73 vermelho como cita seu parceiro Raul Seixas em “Ouro de Tolo”. Como sempre, Sérgio varava as madrugadas até o sol reclamar, o que acontecia lá pelas nove, dez da manhã seguinte. Acordava sempre meio mal-humorado, com um bico congelado no rosto. Tomava banho, toalha enrolada na cabeça, lia o jornal.

Feito isso, o humor voltava a toda, começava a biritar e falar pelos cotovelos, botando apelido em tudo, mostrando canções suas e clássicos brasileiros em sua leitura derramada. Ele cantava com os olhos. Conversava muito comigo, me achava um garoto brilhante, interessado em poesia e letras de canções. Gostava de levar suas namoradas para conversar comigo.

João Moraes

Autor do artigo

"Não posso afirmar que a conversa sobre Elis foi por conta da música que seria gravada. Mas reforça a possibilidade"

Numa dessas, ele me perguntou se conhecia a Elis Regina. Respondi que adorava ela cantando “Bala com Bala”, no disco de 72. Ele ficou todo alegre por eu conhecer e citar a canção. Achava que para um menino de dez anos isso era especial. Aí ele disse: “Quem sabe você não vai conhecer ela um dia?”

“O Grande Xerife” foi censurada em 25 de abril de 1973, como mostra o documento do Arquivo Nacional. É provável que ele já estivesse na missão de compor a canção ou já havia feito. Mas Sérgio não gostava de adiantar informações como essa. Ele dizia que é melhor não falar, porque neguinho seca.

Não posso afirmar que a conversa sobre Elis foi por conta da música que seria gravada. Mas reforça a possibilidade. Infelizmente não se concretizou e tudo porque o censor achou a letra ofensiva à figura da autoridade, uma vez que xerife e delegado são sinônimos para os olhos opacos do autoritarismo.

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